terça-feira, janeiro 10, 2012

Partiu a Sra. Integridade


Tinha nove anos de idade quando a conheci e a primeira impressão foi de que era mais uma que queria meter-me na linha, particularmente quando me deleitava a correr pela vizinhança ou jogar à bola no campo de terra que separa o templo da Igreja do Nazareno e o Seminário Nazareno, no Mindelo, e que sempre terminava quando a bola entrava nas instalações ou embatia nas janelas deste último.

Presença diária na minha casa, ou seja dos meus pais, passei a estimar a presença dela, principalmente quando adoecia. Chegava sempre com uma lata de sumo Compal - de pera, para variar - ou mandava uma canja das boas. Mas sempre que me encontrava por aí, indagava, com aquele ar de general, cabeça altiva e lançada pela frente e olhos fitos, o que estava a fazer. E se a resposta não fosse convincente, não hesitava em mandar-me ir para a casa.

Por volta dos meus 14-15 anos, apesar de ainda impor o sentido a qualquer homem maduro, mormente a um adolescente, já não tinha medo dela e até me dispunha a fazer-lhe "alguns mandados", sempre que me chamava. E como "pagamento", sempre apareciam uns drops, chocolate ou um pedaço de bolo.

Para todos os efeitos era minha tia e eu já me sentia, de facto, seu sobrinho. Senti sempre que ela gostava muito de mim e já em plena juventude, aprendi a reconhecer nela uma pessoa de qualidades extraordinárias.

O seu ar de general, não a impedia de ser carinhosa, atenciosa, dedicada, de uma entrega sem limites ao que fazia e de uma franqueza total. Soube, entrelinhas e em conversas de "gente grande" que ouvia por aí, da extraordinária gestora que era, ao conseguir fazer autênticos milagres para alimentar homens e mulheres que frequentavam o Seminário Nazareno, além de manter o Lar dos Estudantes a funcionar normalmente. O orçamento era curto e nesses tempos  crise financeira não era expressão desconhecida.

Quando estava a estudar em Cuba, recebi um dia uma carta da minha tia. Abri logo para a ler e fui surpreendido com uma oferta de 20 dólares, uma autêntica fortuna na época. É que com um ou dois dólares dava para fazer um bom "banquete" e ajudar a barriga a esquecer o tempero sempre igual da cozinha da escola.

Já adulto, passei em revista a minha tia e descobri nela qualidades que nunca tinha reparado. Por exemplo, o seu humor, sempre tinha uma piada na ponta da língua.

No entanto, há uma característica que engloba muitas outras e que sempre me chamou a atenção nela: a integridade. Acredito que nela a palavra integridade tinha todo o sentido e signifcado, por isso, ao receber hoje a notícia do seu falecimento, veio à minha mente chamá-la Sra. Integridade. Através dela, olhando para a vida dela, todos podiam saber e ver o que significava ser uma cristã.

Tia Idalina - de seu nome de baptismo Idalinha Monteiro Barreto - terminou hoje, 10 de Janeiro, o seu mandato aqui na terra, uma semana antes de completar 96 anos, e foi promovida à Glória para o seu descanso e alegria de quem a conheceu.

Não estou triste, apesar de saber que quando regressar à Praia, não a vou encontrar sentada à porta da casa da D.Zita e do Sr. Napoleão, mais do que filhos dela. Estou feliz por a ter conhecido e por saber que o seu exemplo de mulher de Deus não foi em vão.

Adeus, Tia Idalina, a Sra. Integridade.

5 comentários:

dai varela disse...

Agrada-me ver pessoas pagando tributo à quem foi importante nas suas vidas.
É verdade que só reconhecemos certas coisas com o passar do tempo, mas há pessoas que nos marcam de forma indelével.
Paz à sua alma

Álvaro Ludgero Andrade disse...

Obrigado pela visita e comentário. Mantenhas.

Security & Specialized Unit of Self Defense disse...

OBRIGADO BROTHER POR ESCREVER PARTE DOS MEUS PENSAMENTOS, QUANDO A VI ESTENDIDA SERENAMENTE COMO ERA, NO SALÃO DA JUVENTUDE. ABRAÇO

Saidy Lopes disse...

Olá irmão Alvarito!
Ver gente assim morrendo, você consegue entender que vale a pena andar com Deus. Foi uma vida realmente de integridade que partiu.
Que Deus nos console e nos ajude a levar uma vida assim como ela levou!
Obrigado pelas sua s palavras de alento neste espaço.
Abraços

Anónimo disse...

Deveras, D. Idalina foi um exemplo de integridade para todos nos. Sua integridade, refletiu-se no seu relacionamento com Deus, no qual, acredito, teve origem, e projectou-se na sua interacao com os seus semelhantes. Desafortunadamente, vivemos dias em que a falta de integridade ecoa em gritos incessantes por todo o mundo ao ponto de tornar-se uma raridade ate mesmo no seio dos cristaos. Grato pela homenagem merecida. Votos de breve recuperacao. Sds. BCM