domingo, dezembro 04, 2016

Um tapete vermelho muito especial


Há exactamente um ano, a 4 de Dezembro de 2015, nascia pela quinta vez, como diz a Valéria, e no primeiro ano desse quinto aniversário não podia deixar de celebrar. Foi nesse dia que os médicos retiraram-me o quarto câncer, agora na mama direita.

Após a retirada da primeira mama, em Setembro de 2013, três semanas antes de vir para Washington, decidi que retiraria a segunda em virtude de não pretender tomar um comprimido (uma quimioterapia) durante cinco anos, com os tradicionais efeitos colaterais. Entretanto, pelo meio surgiu o câncer no pâncreas que, pelo seu alto nivel de mortalidade, exigiu tratamento obrigatório prioritário. Entretanto, os médicos diziam para não me preocupar porque a outra mama estava bem, mas algo sempre me dizia que tinha de a retirar.

Quando foi possível, a cirurgiã voltou a perguntar-me se queria mesmo, tendo respondido que sim, com uma frase que fez a doutora ganesa rir muito: "não tenho ninguém para dar de mamar e sabe que em África somos bonitos de qualquer jeito". Antes da cirurgia, fiz alguns exames a confirmar que não havia câncer e que seria mesmo uma intervenção preventiva.

Durante a minha vida, aprendi e provei que quando descansamos em Deus - não apenas em momentos de sufoco, mas de forma permanente e total - Ele, que conhece o caminho, estende uma auto-estrada maior do que aquele "caminho de cabra" que pensamos necessitar para continuar o caminho. A nossa fé, não poucas vezes, limita-se a um favorzinho pequeno, "apenas para vencer esse problema", quando na verdade Deus quer abrir à nossa frente uma passadeira vermelha.


A cirurgia foi um sucesso, a recuperação muito rápida, mas a biópsia feita ao material retirado comprovou que havia um câncer em estado embrionário. Ao contrário do que indicaram os exames e os médicos. Que ficaram pasmos!

Na sua infinita misericórdia, Deus superou todas as expectativas para surpresa dos próprios médicos que, no entanto, se congratularam com o facto.

Neste dia de celebração - será que sairá um bolo, Valeria Andrade???!!! - , volto a agradecer a Deus pela misericórdia e graça, aos médicos pelo profissionalismo e cuidado, à família pelas orações e apoio, bem como a todos os amigos pela solidariedade.



Deus sempre supera as nossas expectativas. Bom domingo!!!

domingo, setembro 25, 2016

Kond muskinha amjá (expressão idiomática mindelense)


Há coisas que nos deixam confundidos, por mais experientes que sejamos, e que podem tirar-nos do foco, ainda que elas sejam aparentemente insignificantes.
O segundo semestre deste ano para mim chegava com duas datas marcantes: a cobertura dos Jogos Olímpicos Rio-2016 em Agosto e o controlo médico em Outubro. Ambas, com uma forte carga emocional, já que a primeira acarretava uma enorme responsabilidade profissional e teria lugar numa região apontada pela imprensa mundial e pela opinião pública brasileira como um inferno (zika, violência e protestos) e a segunda um verdadeiro exame ao invisível para quem já passou por quatro cânceres.
Quem me conhece ou alguma vez trabalhou comigo sabe que – desculpem a franqueza – sou intenso, não paro e procuro sempre fazer o meu melhor, aos detalhes. É, pelo menos, o máximo que dou. E o mês de Agosto não fugiu à regra: foram 90 videos produzidos (70 entrevistas a atletas, técnicos, dirigentes, espectadores, e 20 reportagens diversas), cerca de 30 peças de rádios, centenas de fotos, entradas ao vivo, um blog por actualizar de forma permanente...
Foi sempre a correr, mas também a correr de qualquer ameaça do virus do zika ou do mínimo sinal de insegurança. No final, o Rio de Janeiro foi, de facto, a cidade maravilhosa e não o inferno como foi pintado.
As férias esperadas
Ao regressar, a Valéria e amigos disseram que estava muito bem disposto. Na verdade, sentia-me bem, embora cansado, o que era perfeitamente normal. Cinco dias de férias na primeira semana de Setembro numa praia a três horas de casa era o paraíso a que mais anelava chegar.
A caminho de Ocean City, uma tempestade tropical ditou que só podiamos ficar na areia, mas as comodidades do hotel e as ofertas turísticas da região ocuparam bem a nossa programação, tornando a estada muito agradável. Até ao último dia.
Na terça-feira, fomos à praia para que Bianca e Bruna se despedisem da areia antes de regressar à casa. De repente, uma autêntica invasão de moscas levou muitas pessoas a abondorem o local. Habituado a moscas, não fosse eu cabo-verdiano, das ilhas onde elas acordam antes do nascer-do-sol e dormem depois de todo o mundo, fiquei por lá a pantá-las, mas quando senti ter sido picado e vi que a Valéria tinha as pernas cobertas por uma toalha, decidimos desmontar o acampamento.
Uma mancha vermelha ao redor da parte posterior da canela começou a aumentar de intensidade e a provocar muito coceira. Logo eu que nunca  tive sarna, coceirinha ou qualquer outro tipo de doenças muito banais na minha terra, por exemplo. Na quarta-feira, tive de ir a um “pronto-socorro” para um primeiro atendimento.
Tipo de coisa é essa?
A coisa complicou e dois dias depois estava eu internado no hospital, com uma forte reacção em quase todo o corpo, incluindo nos lábios. Três dermatologistas e dois clínicos gerais não paravam de perguntar que tipo de mosca me teria picado. A invasão das chamadas moscas negras foi até notícia num dos jornais locais de Ocean City.
Depois de três dias, regressei a casa, fortemente medicado com esteroides.  O problema é que eles provocam fortes reacções no corpo como inchaço, aumento de peso,  tensão alta, ansiedade, nervosismo e muitas outras. Continuava a trabalhar, mesmo com esse quadro e muita comichão.
Pelo meio, tinha o tal controlo semestral do câncer de pancreas, enquanto um exame à urina indicava que tudo estava bem com a bexiga, cinco anos depois da cirurgia para a sua remoção e criação de uma neo-bexiga. Ao chegar ao oncologista, olhou para tudo e, em cinco minutos, disse-me: “tudo está bem contigo, agora em Março, nas vésperas de completar os três anos da cirurgia, tiramos mais uma foto”.
Entretanto, ao olhar para o diagnóstico da minha perna e ver que não me sentia confortável, voltou a olhar para o tratamento e, sorrindo, disse-me “acho que já sofreste mais com esta picada de mosca do que com todos os cânceres que tiveste!” E não estava a mentir!
No dia seguinte regressei ao clínico geral que, depois de um certo reajuste do tratamento, recomendou-me um medicamento, sem receita, e que todos tomam para alergia. Duas horas depois não sentia nada, recuperei-me e estou melhor do que nunca.
Foco e detalhes
Na verdade, ante ameaças maiores, como zika, violência ou recorrência de qualquer câncer, foi uma mosca a provocar-me um transtorno nas minhas merecidas férias. Nunca imaginei que a expressão idiomática mindelense “se moskinha amjá” ou “kond moskinha amjá” se aplicaria tão bem a uma situação real. Na verdade, a expressão que adverte para a eventualidade de algo inesperado e indesejado acontecer por “azar” aplicou-se a este caso, literalmente, com a mosca a deixar algo no meu corpo ou, no mínimo, a provocar uma forte reacção.
Em diversas situações da vida, são coisas pequenas, insignificantes, que nunca esperamos que venham a acontecer, que podem colocar areia na engrenagem e fazer-nos perder o foco. O segredo é, exactamente esse, manter o foco e definir o que é prioritário e aquilo que é secundário. Nunca confundir a árvore com a floresta.
Neste caso em particular, a picada da mosca e o consequente efeito dos esteróides por pouco não me tiram do foco, facto que podia levar-me a dar valor demasiado a uma situação menor, transitória, angustiante. Em consequência, os resultados excelentes do controlo semestral e o regresso seguro e saudável do Brasil poderiam ter sido ofuscados completamente, retirando a minha alegria de saber que a saúde continua bem, nas mãos de Deus.
Como escrevi anteriormente, não poucas vezes recorro a esta verdade absoluta que diz que “Deus fez as coisas fracas para confundir as fortes”, para tentar manter o foco naquilo que é importante, prioritário, sem descurar, no entanto, as areias que podem emperrar o meu caminhar.
Em tempo, agradeço a Deus pela reconfirmação dos milagres e reforço a ideia da importância de dar atenção aos datalhes da vida, das coisas pequenas que podem tornar um problema, enfrentá-los, mas sem esquecer as prioridades.

Não importa que “moskinha amjá”, mantenhamos o foco e deixemos que Deus oriente o nosso caminhar.  

Kond muskinha amjá (expressão idiomática mindelense)


Há coisas que nos deixam confundidos, por mais experientes que sejamos, e que podem tirar-nos do foco, ainda que elas sejam aparentemente insignificantes.
O segundo semestre deste ano para mim chegava com duas datas marcantes: a cobertura dos Jogos Olímpicos Rio-2016 em Agosto e o controlo médico em Outubro. Ambas, com uma forte carga emocional, já que a primeira acarretava uma enorme responsabilidade profissional e teria lugar numa região apontada pela imprensa mundial e pela opinião pública brasileira como um inferno (zika, violência e protestos) e a segunda um verdadeiro exame ao invisível para quem já passou por quatro cânceres.
Quem me conhece ou alguma vez trabalhou comigo sabe que – desculpem a franqueza – sou intenso, não paro e procuro sempre fazer o meu melhor, aos detalhes. É, pelo menos, o máximo que dou. E o mês de Agosto não fugiu à regra: foram 90 videos produzidos (70 entrevistas a atletas, técnicos, dirigentes, espectadores, e 20 reportagens diversas), cerca de 30 peças de rádios, centenas de fotos, entradas ao vivo, um blog por actualizar de forma permanente...
Foi sempre a correr, mas também a correr de qualquer ameaça do virus do zika ou do mínimo sinal de insegurança. No final, o Rio de Janeiro foi, de facto, a cidade maravilhosa e não o inferno como foi pintado.
As férias esperadas
Ao regressar, a Valéria e amigos disseram que estava muito bem disposto. Na verdade, sentia-me bem, embora cansado, o que era perfeitamente normal. Cinco dias de férias na primeira semana de Setembro numa praia a três horas de casa era o paraíso a que mais anelava chegar.
A caminho de Ocean City, uma tempestade tropical ditou que só podiamos ficar na areia, mas as comodidades do hotel e as ofertas turísticas da região ocuparam bem a nossa programação, tornando a estada muito agradável. Até ao último dia.
Na terça-feira, fomos à praia para que Bianca e Bruna se despedisem da areia antes de regressar à casa. De repente, uma autêntica invasão de moscas levou muitas pessoas a abondorem o local. Habituado a moscas, não fosse eu cabo-verdiano, das ilhas onde elas acordam antes do nascer-do-sol e dormem depois de todo o mundo, fiquei por lá a pantá-las, mas quando senti ter sido picado e vi que a Valéria tinha as pernas cobertas por uma toalha, decidimos desmontar o acampamento.
Uma mancha vermelha ao redor da parte posterior da canela começou a aumentar de intensidade e a provocar muito coceira. Logo eu que nunca  tive sarna, coceirinha ou qualquer outro tipo de doenças muito banais na minha terra, por exemplo. Na quarta-feira, tive de ir a um “pronto-socorro” para um primeiro atendimento.
Tipo de coisa é essa?
A coisa complicou e dois dias depois estava eu internado no hospital, com uma forte reacção em quase todo o corpo, incluindo nos lábios. Três dermatologistas e dois clínicos gerais não paravam de perguntar que tipo de mosca me teria picado. A invasão das chamadas moscas negras foi até notícia num dos jornais locais de Ocean City.
Depois de três dias, regressei a casa, fortemente medicado com esteróides.  O problema é que eles provocam fortes reacções no corpo como inchaço, aumento de peso,  tensão alta, ansiedade, nervosismo e muitas outras. Continuava a trabalhar, mesmo com esse quadro e muita comichão.
Pelo meio, tinha o tal controlo semestral do câncer de pancreas, enquanto um exame à urina indicava que tudo estava bem com a bexiga, cinco anos depois da cirurgia para a sua remoção e criação de uma neo-bexiga. Ao chegar ao oncologista, olhou para tudo e, em cinco minutos, disse-me: “tudo está bem contigo, agora em Março, nas vésperas de completar os três anos da cirurgia, tiramos mais uma foto”.
Entretanto, ao olhar para o diagnóstico da minha perna e ver que não me sentia confortável, voltou a olhar para o tratamento e, sorrindo, disse-me “acho que já sofreste mais com esta picada de mosca do que com todos os cânceres que tiveste!” E não estava a mentir!
No dia seguinte regressei ao clínico geral que, depois de um certo reajuste do tratamento, recomendou-me um medicamento, sem receita, e que todos tomam para alergia. Duas horas depois não sentia nada, recuperei-me e estou melhor do que nunca.
Foco e detalhes
Na verdade, ante ameaças maiores, como zika, violência ou recorrência de qualquer câncer, foi uma mosca a provocar-me um transtorno nas minhas merecidas férias. Nunca imaginei que a expressão idiomática mindelense “se moskinha amjá” ou “kond moskinha amjá” se aplicaria tão bem a uma situação real. Na verdade, a expressão que adverte para a eventualidade de algo inesperado e indesejado acontecer por “azar” aplicou-se a este caso, literalmente, com a mosca a deixar algo no meu corpo ou, no mínimo, a provocar uma forte reacção.
Em diversas situações da vida, são coisas pequenas, insignificantes, que nunca esperamos que venham a acontecer, que podem colocar areia na engrenagem e fazer-nos perder o foco. O segredo é, exactamente esse, manter o foco e definir o que é prioritário e aquilo que é secundário. Nunca confundir a árvore com a floresta.
Neste caso em particular, a picada da mosca e o consequente efeito dos esteróides por pouco não me tiram do foco, facto que podia levar-me a dar valor demasiado a uma situação menor, transitória, angustiante. Em consequência, os resultados excelentes do controlo semestral e o regresso seguro e saudável do Brasil poderiam ter sido ofuscados completamente, retirando a minha alegria de saber que a saúde continua bem, nas mãos de Deus.
Como escrevi anteriormente, não poucas vezes recorro a esta verdade absoluta que diz que “Deus fez as coisas fracas para confundir as fortes”, para tentar manter o foco naquilo que é importante, prioritário, sem descurar, no entanto, as areias que podem emperrar o meu caminhar.
Em tempo, agradeço a Deus pela reconfirmação dos milagres e reforço a ideia da importância de dar atenção aos datalhes da vida, das coisas pequenas que podem tornar um problema, enfrentá-los, mas sem esquecer as prioridades.

Não importa que “moskinha amjá”, mantenhamos o foco e deixemos que Deus oriente o nosso caminhar.  

sábado, agosto 20, 2016

Acredite se quiser, se não continuamos amigos




Cheguei ao Brasil no dia 31 de Julho e na quarta-feira, 3 de Agosto, deixei, por esquecimento, o microfone no autocarro, no trajecto entre o Centro de Imprensa e a Vila Olímpica. Na correria para apanhar um atleta antes dele entrar na área proibida aos jornalistas, só me lembrei do microfone ao passar no posto de controlo de segurança, mas o autocarro já tinha partido. A simpática voluntária consolou-me ao dizer que o Centro de Imprensa tinha um departamento para Perdidos e Achados.

Perder o microfone num tipo de cobertura como esta, com vários equipamentos e muitas coisas a acontecerem ao mesmo tempo, não é crime, nem dá processo. Já me aconteceu no passado, mas, no caso em apreço, tendo em conta que faço imagens e entrevistas ao mesmo tempo, além de ser um bom microfone, tinha um cabo comprido que me permitia realizar o trabalho com mais facilidade. O microfone que me emprestou o meu colega da VOA, embora bom, tinha um cabo muito curto, o que complicava as coisas.

Na quinta, na sexta, no sábado e no domingo seguintes, ao chegar ao Centro de Imprensa pelas 8, 30 da manhã dirigia-me sempre ao local para saber se o microfone estava lá. Os voluntários já me conheciam e ao entrar iam directo ao depósito mas ... nada.


Suspendi a busca, mas continuava a enfrentar dificuldades já que o cabo curto e o uso da lapela nem sempre se adaptavam a entrevistas feitas a correr ou quando os entrevistados são atletas, que, além do showzinho da praxe, têm outras solicitações. Decidi, então apelar, ao Criador, lembrando do que escreveu Tiago no seu livro sagrado: “Pedis e não recebeis porque pedis mal para gastardes em vossos deleites”.

Deus sabia que o que estava em causa era o meu trabalho e não um deleite, por isso pedi claramente ao meu Deus por saber que apenas Ele conhecia o lugar exacto onde estava o microfone. Acreditava que era a última e a única alterativa.

Sem ir ao tal balcão de Perdidos e Achados por três dias, na quinta-feira, 10, ao descer as escadas, “ocorreu-me” a ideia de perguntar aos sempre prestativos voluntários onde podia comprar um cabo para microfone, logicamente maior do que aquele que tinha. Enquanto uma das moças me sugeria que falasse com algum colega ligado à área técnica no edifício onde estão instaladas as empresas de transmissão dos jogos, uma outra, de nome Danielle, aproximou-se e disse-me: “lá dentro há um microfone com o mesmo logo da sua camisa!!!”. Acto contínuo, uma outra que já me conhecia das visitas ao local, aproximou-se e exclamou “finalmente encontrou???!!!!"

Que outra justificação posso encontrar para este facto? Sorte, alguns podem dizer que sim, e respeito. Mas, para mim, é resposta a uma oração sincera, não devido aos meus lindos olhos, mas porque Deus é fiel em relação à Sua Palavra e Ele tem os seus propósitos. O trabalho, sem dúvida, ficou menos dificultado e senti a protecção do Papá.


Acredita se quiser, se não, continuamos amigos na mesma!