Sexta-feira, Março 09, 2012

Mulher, mulher. É obra DIVINA !!!!!!!!!


Com o devido respeito e vénia merecida, reproduzo aqui um lindo texto do génio da escrita Luiz Fernando Veríssimo sobre a mulher. Só não sublinho a última frase que aqui, de antemão, reescrevo. "É, meu amigo, se você acha que mulher é caro demais, aprenda a ser homem!"

Boa leitura.

O desrespeito à natureza tem afetado a    sobrevivência de vários seres e entre os mais ameaçados está a fêmea da    espécie humana. Tenho apenas um exemplar em casa, que mantenho com muito    zelo e dedicação, mas na verdade acredito que é ela quem me mantém. Portanto,    por uma questão de auto-sobrevivência, lanço a campanha 'Salvem as    Mulheres!'

Tomem aqui os meus poucos    conhecimentos em fisiologia da feminilidade a fim de que preservemos os    raros e preciosos exemplares que ainda restam:

Habitat: Mulher não pode ser    mantida em cativeiro. Se for engaiolada, fugirá ou morrerá por dentro. Não    há corrente que as prenda e as que se submetem à jaula perdem o seu DNA.    Você jamais terá a posse de uma mulher, o que vai prendê-la a você é uma    linha frágil que precisa ser reforçada diariamente.

Alimentação correta:    Ninguém vive de vento. Mulher vive de carinho. Dê-lhe em abundância. É    coisa de homem, sim, e se ela não receber de você vai pegar de outro.    Beijos matinais e um "eu te amo" no café da manhã as mantém    viçosas e perfumadas durante todo o dia. Um abraço diário é como a água    para as samambaias. Não a deixe desidratar. Pelo menos uma vez por mês é    necessário, senão obrigatório, servir um prato especial. Flores também    fazem parte de seu cardápio ? mulher que não recebe flores murcha    rapidamente e adquire traços masculinos como rispidez e brutalidade.

Respeite a natureza: Você    não suporta TPM? Case-se com um homem. Mulheres menstruam, choram por nada,    gostam de falar do próprio dia, discutir a relação? Se quiser viver com uma    mulher, prepare-se para isso. Não tolha a sua vaidade É da mulher hidratar    as mechas, pintar as unhas, passar batom, gastar o dia inteiro no salão de    beleza, colecionar brincos, comprar muitos sapatos, ficar horas escolhendo    roupas no shopping. Entenda tudo isso e apoie.

Cérebro feminino não é um    mito: Por insegurança, a maioria dos homens prefere não acreditar na    existência do cérebro feminino. Por isso, procuram aquelas que fingem não    possuí-lo (e algumas realmente o aposentaram!). Então, aguente mais essa:    mulher sem cérebro não é mulher, mas um mero objeto de decoração. Se você    se cansou de colecionar bibelôs, tente se relacionar com uma mulher.    Algumas vão lhe mostrar que têm mais massa cinzenta do que você. Não fuja    dessas, aprenda com elas e cresça. E não se preocupe, ao contrário do que    ocorre com os homens, a inteligência não funciona como repelente para as    mulheres.

Não faça sombra sobre    ela: Se você quiser ser um grande homem tenha uma mulher ao seu lado, nunca    atrás. Assim, quando ela brilhar, você vai pegar um bronzeado. Porém, se    ela estiver atrás, você vai levar um pé-na-bunda.

Aceite: mulheres também têm luz própria e não dependem de nós para brilhar.    O homem sábio alimenta os potenciais da parceira e os utiliza para motivar    os próprios. Ele sabe que, preservando e cultivando a mulher, ele estará    salvando a si mesmo.

É, meu amigo, se você acha que mulher é caro demais, vire gay. Só tem  mulher quem pode!

Luiz Fernando Veríssimo

Segunda-feira, Fevereiro 20, 2012

Agradecimento



No momento em que termino o tratamento ao câncer de bexiga e que regresso a Cabo Verde, e na impossibilidade de o fazer pessoalmente, dirijo-me a todos que oraram por mim e minha família durante os últimos nove meses com um profundo sentimento de gratidão.

Falei com muitos, mas sei que todos que souberam da minha doença, nas várias igrejas de Cabo Verde e na nossa diáspora, levaram o meu nome ao trono da Graça.

Quero testemunhar que Deus ouviu e operou. Ele interveio da forma como Ele quis e no seu tempo. Durante este período, aparentemente longo para os homens mas brevíssimo para Deus, pude conhecer a paz que de facto só Ele pode dar e desfrutar da sua Graça que sempre foi superabundante.

Cada manhã apreciei a renovação da sua misericórdia e entendi a profundidade dessa verdade absoluta que nos ensina a compreender que todas as coisas contribuem para o bem daqueles que amam a Deus. Na verdade, se Deus é por nós quem será contra nós!?

Na hora de regressar a Cabo Verde, curado pela Sua Graça e sabedoria dada aos homens, o meu coração está repleto de gratidão a Deus, à minha família e a vocês que oraram por mim. Não esqueço dos que me visitaram, telefonaram e enviaram mensagens pelos mais diversos meios, particularmente através do Facebook.

Volto mais obreiro do que jornalista, disposto a cumprir a visão que Deus me deu a mim e à Valéria em 2008, em Miami, e que nos levou a regressar a Cabo Verde.

Para Ele, para Ele apenas, toda a Glória.

Particular agradecimento às igrejas da Praia e de New Bedford, que me recebeu como filho, mas o sentimento é igual em relação a todas.

Terão sempre em mim um amigo, irmão e servo.

Com muita gratidão e carinho,

Alvarito

Sábado, Janeiro 14, 2012

Das eleições à democracia



O tempo parece que voou, mas olhando para os meus cabelos brancos e exactamente para os 21 anos de jornalismo tenho de concluir que, na verdade, já se passou quase meio século desde que, no dia 13 de Janeiro de 1991, os cabo-verdianos escolheram pela primeira vez, de forma livre e democrática, a quem entregar os seus destinos num determinado período de tempo.

Lembro-me agora que não votei. O dia começou cedo, pelas 6 horas da manhã já me encontrava na sede da então Televisão Nacional de Cabo Verde para coordenar toda a cobertura das eleições. Tinha entrado para a TNCV seis meses antes, depois de um ano de experiência como comentarista de política internacional na Rádio Nacional de Cabo Verde em regime de colaboração.

Estava a dar os meus primeiros passos na profissão que sempre desejei. Decidi, na altura, deixar de lado o diploma universitário e a profissão que aprendera, para fazer o que mais gostava.

Sendo assim, enquanto aprendia com colegas, muita leitura e prática, optei por fazer programas e estava muito feliz quando, em Novembro de 1990, e depois de uma série de movimentações na TNCV - com cartas ao ministro de então, respostas e contra-respostas -, a então Chefe de Informação demitiu-se e o colectivo exigiu que o próximo responsável do departamento fosse eleito. Depois de muita insistência, porque não pertencia à Informação, aceitei que o meu nome fosse para o boletim e, ainda antes de 13 de Janeiro, fui eleito Chefe do Departamento de Informação, com a responsabilidade de cobrir a campanha e eleitoral. Na altura coloquei uma única condição: no dia 14 de Janeiro, alguém tomaria o lugar porque o meu lugar era no Departamento de Programas.
No dia de todas as verdades, a azáfama foi muita porque ninguém tinha experiência de coberturas eleitorais, os meios eram aqueles que tínhamos e estávamos sempre entre os tiroteios do PAICV e do MpD. A transmissão começou às 18 horas e uma grande maratona de entrevistas, debates e espaços culturais tomou conta do Estúdio 2, que foi re-inaugurado nessa noite. Dentro das nossas possiblidades, a cobertura foi muito boa.

Eu, no entanto, não votei porque não pude abandonar o barco nem por um minuto. No dia 14, dirigi um programa com o rescaldo do dia anterior e no dia 15 regressei ao meu lugar no Departamento de Programas.

Passados 21 anos, reparo que somos campeões em eleições, apesar das polémicas que teimam em persistir. Assim como em 1991, ouvimos falar e assistimos a cenas de compra de consciências e da mesma forma descobrimos tentativas de fraudes, num cenário em que todos são pecadores, ninguém é santo.

Assim como em 1991, a imprensa é culpada até da derrota de quem não festeja, como se fosse ela a votar, passando assim um atestado de incompetência aos eleitores. Do mesmo modo, quem ganha se acha no direito de povoar a Administração Pública e o sector empresarial do Estado, ao mesmo tempo que tudo é feito em função de amarelo ou verde. É claro que melhorámos muito neste quesito particularmente nos últimos anos.

O Economist considerou Cabo Verde a 26a. democracia do mundo e todos nos orgulhamos disso. Na verdade, e tirando o galanteio crioulo, quando nos comparamos com alguns vizinhos e outros mais distantes, podemos andar de cabeça levantada.

No entanto, sempre há um no entanto, apesar do sistema funcionar, considero que temos um longo caminho a percorrer para conseguirmos uma democracia funcional em pleno. Aqui corroboro as opiniões do Presidente da República e do Primeiro-Ministro, quando defendem uma "democracia com reforço dos poderes de vários sectores da sociedade" e que "o multipartidarismo se constrói dia a dia", respectivamente.

Fico com a ideia de  existir um pensamento no país de que a democracia tem como principal objectivo a realização de eleições e a alternância no poder. Nada mais falso e os exemplos existem por aí. As eleições e a alternância no poder são apenas instrumentos para o exercício da democracia que passa por uma sociedade gerida a favor do bem comum, com direitos e deveres iguais, em que o cidadão é respeitado pelo cidadão e pela Administração e em que o Estado existe para servir os cidadãos e permitir que estes possam criar e distribuir riqueza.

De um lado, os actores políticos, na sua maioria, continuam a pensar que o sistema funciona através deles e, por isso, teimam em manter uma agenda de acordo com os seus interesses e, em especial, com o seu tempo de mandato, tanto no poder como na oposição. Do outro lado, a sociedade continua à espera que o Estado construa a democracia e dê tudo de mão beijada, desde emprego até à participação cívica.

A propósito, noto que a sociedade se deixa levar por ondas de manifestações, muitas vezes manipuladas por interesses do próprio sistema político (partidos e sindicatos, por exemplo), em vez de se afirmar como força de pressão permanente e soldado da cidadania.

O movimento "occupy" é uma prova como as simples revoltas não levam a nada, a não ser algumas manchetes dos jornais e tv nos primeiros dias, carga policial e, no final, uma terrível sensação de frustração e impotência. Enquanto isso, a Primavera Árabe revelou-se muito mais do que um protesto, mas uma exigência das sociedades oprimidas que, pela força da razão, conseguiram se libertar de tiranos.

A democracia não é um sistema de organização do Estado, apenas, mas uma forma de vida em sociedade. Chegaremos lá.

Quarta-feira, Janeiro 11, 2012

A banalização da violência



A agressão ao pastor nazareno José Heleno Pereira na zona de Bela Vista, arredores da cidade da Praia, foi apenas mais um capítulo da violência que assentou arraiais em Cabo Verde, com particular incidência na capital do país. A narração do ataque é igual à de tantos outros e acredito que assumiu estatuto de notícia por a vítima ser um pastor, ou seja um homem de paz.

Na verdade, este foi o único motivo que deve ter levado os meios de comunicação a noticiar o facto. É que, recorrendo à máxima jornalística de que "se um cão morde um homem não é notícia, mas se o contrário acontece então vira manchete", dentro de pouco tempo em Cabo Verde as agressões a cidadãos e a violência urbana deixam de ocupar as primeiras páginas dos jornais, telejornais e noticiários das rádios.

Em Cabo Verde, querendo ou não, vive-se hoje a banalização da violência. Os "caçubodis" ou tentativas de assaltos são temas diários nas conversas de café, festas, salões de beleza, barbearias e até nos estádios de futebol. Parece que o nosso Big Brother é a fuga aos assaltos, em que cada um inventa formas de evitar ataques, seja chegando mais cedo à casa, não sair à noite, estar sempre acompanhado de alguém,  uso de armas, etc.

No meio desse labirinto em que discursos e realidade parecem andar em velocidades diferentes, há um aspecto que me chama a atenção: quando falo com pessoas com alguma responsabilidade, nomeadamente no terreno, não sinto firmeza nas soluções.

Sou um leigo na matéria, mas como observador social, tanto em Cabo Verde como no exterior, acredito que vários são os factores que estão na origem dessa situação. Muito mais do que o desenvolvimento(!), como dizem alguns, o aumento da população, o tráfico e consumo de drogas, a pobreza, a chegada de deportados, o consumismo desenfreado, entre outros.

Do meu ponto de vista, há outros factores que tanto psicólogos e outros cientistas sociais como as autoridades preferem não citar, ou não dar tanta importância, tanto em Cabo Verde como noutros países: o défice de educação em casa, a falta de autoridade dos pais e do sistema de ensino, a perda de valores, a falta de autoridade do Estado, a ausência de policiamento e o deficiente, para não dizer muito débil, sistema de penalização dos infractores.

Do meu ponto de vista, considero que as primeiras medidas passam por uma presença permanente e em força de polícias na rua e um endurecimento de penas, mesmo para aqueles que participarem em assaltos frustrados. Sem mais fora, workshops, nem seminários para discutir o óbvio e que já foi posto em prática, por exemplo em New York e, mais recentemente, no Rio de Janeiro.

É deprimente circular por toda a cidade da Praia e arredores e não encontrar um único polícia na rua. No entanto, se alguém for apresentar uma queixa ou tratar de um assunto numa esquadra qualquer, depara-se com quatro ou cinco agentes em amenas cavaqueiras. Digo por experiência própria.

Deixemos de tretas: a violência urbana combate-se com forte policiamento, intervenções rápidas e penas duras. Neste particular, volto a defender o que sempre disse, apesar da oposição dos castrenses: as Forças Armadas deviam ser transformadas numa grande força de defesa das nossas costas (Guarda Costeira) e das nossas cidades, neste último caso através de uma presença marcante nas ruas. Também não estaremos a inventar, vejam-se os exemplos da Suíça e da Costa Rica.

Os demais factores podem ser combatidos através de uma maior autoridade dos pais, regresso dos valores ao seio familiar e à escola, melhoria das condições de vida nos bairros pobres, criação de espaços de diversão, promoção do emprego e instalação de uma efectiva rede de prevenção e tratamento que envolva igrejas, organizações não governamentais, grupos sociais, autarquias, departamentos governamentais, etc.

A realidade mostra-nos que os resultados decorrentes dessas últimas acções não acontecem imediatamente, podendo ser visíveis apenas na próxima geração. Por agora, cabe ao Governo, como responsável pela segurança dos cidadãos, impor a autoridade do Estado através de um luta sem tréguas pela força, com policiamento permanente e reforçado e endurecimento das penas.

Sem pretender ser messiânico (!!!), ou acabamos com os violentos agora, ou eles acabam com o nosso país, a paz e o desenvolvimento tão desejado a meio e longo prazos.

PS: Este post foi escrito antes do primeiro-ministro anunciar as novas medidas do Governo para combater a violência.

Terça-feira, Janeiro 10, 2012

Partiu a Sra. Integridade


Tinha nove anos de idade quando a conheci e a primeira impressão foi de que era mais uma que queria meter-me na linha, particularmente quando me deleitava a correr pela vizinhança ou jogar à bola no campo de terra que separa o templo da Igreja do Nazareno e o Seminário Nazareno, no Mindelo, e que sempre terminava quando a bola entrava nas instalações ou embatia nas janelas deste último.

Presença diária na minha casa, ou seja dos meus pais, passei a estimar a presença dela, principalmente quando adoecia. Chegava sempre com uma lata de sumo Compal - de pera, para variar - ou mandava uma canja das boas. Mas sempre que me encontrava por aí, indagava, com aquele ar de general, cabeça altiva e lançada pela frente e olhos fitos, o que estava a fazer. E se a resposta não fosse convincente, não hesitava em mandar-me ir para a casa.

Por volta dos meus 14-15 anos, apesar de ainda impor o sentido a qualquer homem maduro, mormente a um adolescente, já não tinha medo dela e até me dispunha a fazer-lhe "alguns mandados", sempre que me chamava. E como "pagamento", sempre apareciam uns drops, chocolate ou um pedaço de bolo.

Para todos os efeitos era minha tia e eu já me sentia, de facto, seu sobrinho. Senti sempre que ela gostava muito de mim e já em plena juventude, aprendi a reconhecer nela uma pessoa de qualidades extraordinárias.

O seu ar de general, não a impedia de ser carinhosa, atenciosa, dedicada, de uma entrega sem limites ao que fazia e de uma franqueza total. Soube, entrelinhas e em conversas de "gente grande" que ouvia por aí, da extraordinária gestora que era, ao conseguir fazer autênticos milagres para alimentar homens e mulheres que frequentavam o Seminário Nazareno, além de manter o Lar dos Estudantes a funcionar normalmente. O orçamento era curto e nesses tempos  crise financeira não era expressão desconhecida.

Quando estava a estudar em Cuba, recebi um dia uma carta da minha tia. Abri logo para a ler e fui surpreendido com uma oferta de 20 dólares, uma autêntica fortuna na época. É que com um ou dois dólares dava para fazer um bom "banquete" e ajudar a barriga a esquecer o tempero sempre igual da cozinha da escola.

Já adulto, passei em revista a minha tia e descobri nela qualidades que nunca tinha reparado. Por exemplo, o seu humor, sempre tinha uma piada na ponta da língua.

No entanto, há uma característica que engloba muitas outras e que sempre me chamou a atenção nela: a integridade. Acredito que nela a palavra integridade tinha todo o sentido e signifcado, por isso, ao receber hoje a notícia do seu falecimento, veio à minha mente chamá-la Sra. Integridade. Através dela, olhando para a vida dela, todos podiam saber e ver o que significava ser uma cristã.

Tia Idalina - de seu nome de baptismo Idalinha Monteiro Barreto - terminou hoje, 10 de Janeiro, o seu mandato aqui na terra, uma semana antes de completar 96 anos, e foi promovida à Glória para o seu descanso e alegria de quem a conheceu.

Não estou triste, apesar de saber que quando regressar à Praia, não a vou encontrar sentada à porta da casa da D.Zita e do Sr. Napoleão, mais do que filhos dela. Estou feliz por a ter conhecido e por saber que o seu exemplo de mulher de Deus não foi em vão.

Adeus, Tia Idalina, a Sra. Integridade.

Sexta-feira, Dezembro 30, 2011

A (minha) retrospectiva de 2011



Para manter a tradição, publico aqui uma retrospectiva resumida dos principais factos que marcaram o ano que ora termina em Cabo Verde, na minha óptica. O artigo, elaborado para e publicado pela Portuguese News Network (www.pnn.pt), limita-se a destacar alguns dos principais factos de 2011.

Feliz Ano a todos, com muita paz, realizações e amor. Deus tem muito mais para cada um.

O ano que agora termina em Cabo Verde foi essencialmente marcado por três eleições, falecimento de figuras marcantes na história do país, crise financeira e desmantelamento de uma das maiores redes de droga.

No campo político, os destaques vão para a terceira maioria consecutiva do PAICV liderado por José Maria Neves e a eleição de Jorge Carlos Fonseca para a Presidência da República.

A campanha para as legislativas de 6 de Fevereiro foi considerada por observadores políticos a mais “quente e importante” desde a implantação da democracia em Cabo Verde em 1991.

De um lado, o PAICV, depois de uma década no poder e em que viu Cabo Verde atingir o patamar de País de Rendimento Médio e conseguir excelentes resultados a nível económico e nas infra-estruturas, apostou tudo num terceiro mandato, na tentativa de quebrar assim o tradicional ciclo de dois mandatos nas democracias ocidentais.

Do outro lado, o líder histórico do MpD Carlos Veiga regressou à política activa depois de 10 anos como o “salvador” do partido e apostou toda a sua imagem e percurso político para evitar mais uma vitória do PAICV.

Depois de uma dura campanha, marcada por promessas exageradas, críticas exacerbadas, muito dinheiro em publicidade e os primeiros debates televisivos e radiofónicos entre os candidatos a primeiros-ministros, o PAICV venceu as eleições e consagrou José Maria Neves como o primeiro líder político cabo-verdiano a conseguir três maiorias absolutas consecutivas.

A UCID, a terceira mais importante força política, não conseguiu melhor que manter os dois deputados na Assembleia Nacional que já vinham do mandato anterior, enquanto o PTS e o PSD não fizeram mossa a ninguém.

Com a crise financeira às portas, o primeiro-ministro reconduzido anunciou um governo que não agradou nem a muitos militantes do seu partido nem a vários sectores da sociedade, por ser grande, com pastas mal distribuídas e sem as “tais competências” previamente anunciadas por José Maria Neves, que enfrentou até a última hora imensas dificuldades na formação do elenco.

Mas havia mais uma importante eleição, a presidencial, e que marcaria o adeus à vida política activa de Pedro Pires, companheiro de Amílcar Cabral na luta pela Independência do país, primeiro-ministro durante os 15 anos de partido único e Presidente da República nos últimos 10 anos.

Esta eleição, cuja primeira volta aconteceu a 7 de Agosto, foi marcada por uma forte divisão no partido do poder, o PAICV, em virtude de terem surgido dois candidatos na mesma área política: Manuel Incêncio Sousa, candidato oficial do partido, e Aristides Lima, candidato apoiado por uma grande franja de militantes do PAICV não alinhados com a cúpula do partido.

Do outro lado, Jorge Carlos Fonseca, apoiado pelo MpD, soube aproveitar da melhor forma a divisão entre os tambarinas e, na segunda volta, a 21 de Agosto, ganhou a eleição, dando início à primeira coabitação política na história do país: PR, apoiado pelo MpD, na oposição, e primeiro-ministro, do PAICV.

Em Setembro, com a posse do novo PR e a abertura do ano parlamentar em Outubro o país deixou para trás 10 meses de disputa política que provocou marcas visíveis na crispação política cada vez maior e na economia do país, que sentiu e sente fortemente os abalos da situação internacional, particularmente da Europa, principal parceiro comercial de Cabo Verde.

A crise financeira também fez das suas no sistema governativo através de uma pública confrontação entre a super-poderosa Ministra das Finanças e o Governador do Banco de Cabo Verde.

O governador do banco central Carlos Burgo considerou o governo despesista e advertiu para o orçamento “também despesista” para 2012, ao que a ministra Cristina Duarte, sem papas na língua, retorquiu: “que ele não venha ensinar o padre a rezar a missa”.

O certo é que a economia do país, que cresceu 5,6 por cento em 2010, depois de uma média de crescimento de 7 por cento nos anos anteriores, sentiu este ano os efeitos da crise, com resultados evidentes na estagnação dos investimentos imobiliários, redução do fluxo turístico no primeiro semestre do ano, redução real de investimentos públicos e retracção nos investimentos privados, tanto de nacionais como, principalmente, de estrangeiros.

Em consequência, os prometidos 13º. mês e o salário mínimo foram adiados sine die, dando lugar a muitas manifestações públicas de descontentamento por parte dos sindicatos, que, com o anúncio de congelamento dos aumentos salariais para 2012, recusaram assinar o Acordo de Concertação Social com o governo.

Ao mesmo tempo, o país enfrenta, particularmente a capital, uma grave crise de energia e água para descontentamento da população e, particularmente, dos operadores económicos que se queixam de milhoes de escudos em prejuízos.

Para complicar ainda mais a situação, trabalhadores de alguns sectores fizeram greves, como os das alfândegas que não trabalharam nos dias 22 e 23 de Dezembro, provocando prejuizos calculados em cerca de 10 milhões de euros para os cofres do Estado.

Entretanto, apesar da situação real não ser a melhor, o Governo tem-se congratulado com boas notícias, nomeadamente a atribuição do segundo compacto da ajuda americana, o Millenium Challenge Account, que vai investir 62 milhões de dólares em energia, água saneamento, transportes e infra-estrauturas, e a promessa da União Europeia de que não haverá redução na ajuda ao arquipélago.

Ao mesmo tempo, Cabo Verde continua sendo considerado “um caso de sucesso em África”, por várias organizações, tanto em matéria de democracia como de desenvolvimento económico.

Mais recentemente, no Democracy Índex, relatório elaborado pelo Economy Intelligence Unit, um instituto ligado à revista "The Economist", Cabo Verde aparece no 26º lugar, à frente de Portugal(27º) e do Brasil (45º), em matéria de democracia.

Nos últimos cinco anos, Cabo Verde passou da 33ª. posição em 2008 para a 26ª. em 2011, com a principal mudança a ocorrer no indicador “cultura e maturidade política”.

Antes, o antigo Presidente da República Pedro Pires fora galardoado com o prémio Mo Ibrahim, atribuído pela fundação de mesmo nome e que distingue com cinco milhões de dólares um antigo Chefe de Estado ou de Governo que se tenha primado pela defesa e promoção da democracia.

O ano de 2011 foi também de perdas de duas figuras maiores do Cabo Verde moderno.

A 22 de Setembro faleceu em Portugal Aristides Pereira, primeiro Presidente da República, fundador do Partido Africano para a Independência de Cabo Verde e Guiné-Bissau e um dos mais prestigiados líderes africanos.

Pereira recebeu as honras de ter sido aquele que liderou Cabo Verde, em 1975, quando as ilhas eram consideradas inviáveis como país.

Em Dezembro, mais precisamente no dia 17, o país e o mundo despediram-se de Cesária Évora, a conhecida Cize, que levou o nome de Cabo Verde aos quatro cantos do planeta com a sua música e simpatia. O luto abateu-se literalmente sobre a Nação crioula.

Antes, a 3 de Fevereiro, falecia também Nácia Gomi, a rainha do finason, um dos mais tradicionais géneros musicais de Cabo Verde, particularmente da ilha de Santiago.

A outro nível, Cabo Verde foi referenciado num relatório das Nações Unidas como um dos país de trânsito da droga proveniente da América do Sul com destino a Europa.

Nos últimos tempos, a Polícia Juidiciária e outras forças nacionais fecharam o cerco a traficantes, colocando muitos na cadeia e recuperando avultados bens adquiridos com o dinheiro da droga.

Entretanto, 8 de Outubro fica na história como o dia da maior operação de sempre contra o tráfico de droga: a PJ apreendeu uma tonelada e meia de cocaína pura (100 milhões de dólares no mercado), cinco carros de topo de gama, armas e muito dinheiro, além de deter três dos cabecilhas do grupo.

Na altura, a PJ disse que a operação baptizada de “Lancha Voadora” estava apenas no começo e ameaçou com novas prisões.

A 20 de Dezembro, a PJ deteve o presidente da Bolsa de Valores de Cabo Verde Veríssimo Pinto e mais seis pessoas, no âmbito da referida operação.

Pinto, acusado de levagem de capitais na qualidade de sócio-gerente da empresa Auto Center SA, e mais quatro considerados os operacionais aguardam o julgamento na prisão, enquanto os restantes dois não podem sair do país e devem apresentar-se regularmente às autoridades.

A operação foi considerada um forte golpe no tráfico de droga que poderá procurar outros destinos, considerando que Cabo Verde aposta muito nesta área, para a qual conta com fortes apoios dos Estados Unidos, Inglaterra e União Europeia.

2012 apresenta-se com um ano charneira para Cabo Verde: ou a crise se aprofunda ou, finalmente, o país descola para uma economia produtiva, capaz de criar riqueza.