sábado, agosto 20, 2016

Acredite se quiser, se não continuamos amigos




Cheguei ao Brasil no dia 31 de Julho e na quarta-feira, 3 de Agosto, deixei, por esquecimento, o microfone no autocarro, no trajecto entre o Centro de Imprensa e a Vila Olímpica. Na correria para apanhar um atleta antes dele entrar na área proibida aos jornalistas, só me lembrei do microfone ao passar no posto de controlo de segurança, mas o autocarro já tinha partido. A simpática voluntária consolou-me ao dizer que o Centro de Imprensa tinha um departamento para Perdidos e Achados.

Perder o microfone num tipo de cobertura como esta, com vários equipamentos e muitas coisas a acontecerem ao mesmo tempo, não é crime, nem dá processo. Já me aconteceu no passado, mas, no caso em apreço, tendo em conta que faço imagens e entrevistas ao mesmo tempo, além de ser um bom microfone, tinha um cabo comprido que me permitia realizar o trabalho com mais facilidade. O microfone que me emprestou o meu colega da VOA, embora bom, tinha um cabo muito curto, o que complicava as coisas.

Na quinta, na sexta, no sábado e no domingo seguintes, ao chegar ao Centro de Imprensa pelas 8, 30 da manhã dirigia-me sempre ao local para saber se o microfone estava lá. Os voluntários já me conheciam e ao entrar iam directo ao depósito mas ... nada.


Suspendi a busca, mas continuava a enfrentar dificuldades já que o cabo curto e o uso da lapela nem sempre se adaptavam a entrevistas feitas a correr ou quando os entrevistados são atletas, que, além do showzinho da praxe, têm outras solicitações. Decidi, então apelar, ao Criador, lembrando do que escreveu Tiago no seu livro sagrado: “Pedis e não recebeis porque pedis mal para gastardes em vossos deleites”.

Deus sabia que o que estava em causa era o meu trabalho e não um deleite, por isso pedi claramente ao meu Deus por saber que apenas Ele conhecia o lugar exacto onde estava o microfone. Acreditava que era a última e a única alterativa.

Sem ir ao tal balcão de Perdidos e Achados por três dias, na quinta-feira, 10, ao descer as escadas, “ocorreu-me” a ideia de perguntar aos sempre prestativos voluntários onde podia comprar um cabo para microfone, logicamente maior do que aquele que tinha. Enquanto uma das moças me sugeria que falasse com algum colega ligado à área técnica no edifício onde estão instaladas as empresas de transmissão dos jogos, uma outra, de nome Danielle, aproximou-se e disse-me: “lá dentro há um microfone com o mesmo logo da sua camisa!!!”. Acto contínuo, uma outra que já me conhecia das visitas ao local, aproximou-se e exclamou “finalmente encontrou???!!!!"

Que outra justificação posso encontrar para este facto? Sorte, alguns podem dizer que sim, e respeito. Mas, para mim, é resposta a uma oração sincera, não devido aos meus lindos olhos, mas porque Deus é fiel em relação à Sua Palavra e Ele tem os seus propósitos. O trabalho, sem dúvida, ficou menos dificultado e senti a protecção do Papá.


Acredita se quiser, se não, continuamos amigos na mesma!

domingo, maio 22, 2016

Disponibilidades



Numa primeira volta pelas manchetes desta semana, apesar de todo o "elevado" espírito republicano de 20 de Março e seguintes, dá dó ver o nível de muitos candidatos a candidatos a se mostrarem "disponíveis para serem sondados" para cargos tão importantes que vão a voto dentro de dois a três meses.
Uma leitura profunda, mas elementar, desse posicionamento que invadiu Cabo Verde revela que esses candidatos a candidatos não têm projectos políticos, nem programas para as câmaras municipais às quais concorrem, mas tão somente estão disponíveis para os "jobs" e com o apoio dos partidos do arco do poder porque sozinhos nada representam. Não se pode criar uma plataforma programática nem montar uma equipa em menos de dois meses a tempo de preparar uma campanha minimamente séria. Poderá haver excepções?! O tempo dirá.
Por esta e outras razões, ao contrário do que dizem muitos, considero que temos um poder autárquico fraco, com muitos gestores camarários fracos (há excepções, claro), que apenas ficam à espera que o Governo da sua cor lhes dê boleia ou se posicionam, à partida, como oposição ao Executivo por ser de outra cor política.
O problema não está na legislação ou no tipo de poder autárquico instituído, mas na gestão. Quem sabe e pode fazer faz e mostra o caminho, não fica a chorar, nem vive do "comboio da alegria" do Governo, qualquer que ele for.
O poder autárquico pode ser um espaço de afirmação da cidadania que tanto grita nas ilhas, mas para tal pode estar a faltar consciência cidadã dos líderes e dos próprios cidadãos. E os partidos, também, não gostam disso: ou se afirmam como tais e apresentam os seus candidatos ou camuflam em grupos, alianças e associações pseudo-independentes.
Haverá uma terceira via?

domingo, maio 15, 2016

Narciso, não, agradecido e com referências


Hoje, 15 de Maio, ao acordar, pouco depois das seis da manhã porque não sou de muitas horas de sono, ainda na cama agradeci a Deus por mais um dia. Que não é apenas mais um dia.

Há exactamente dois anos, a 15 de Maio de 2014, submeti-me a uma intervenção cirúrgica de sete horas e meia para a remoção de um câncer (continuo a rejeitar escrever cancro, não gosto) no pâncreas. É mesmo, ali mesmo!!! Todos se espantam quando narro essa experiência e olham para mim como se estivessem a ver um fantasma ou alguém com dias contados.

Também quando cheguei ao hospital, apesar do alto profissionalismo e sentido de humanismo do pessoal no Georgetown University Hospital, notei algo estranho em algumas faces quando sabiam que estava lá com um câncer no pâncreas. Como me disse um especialista meses depois, foi o câncer que o Steve Jobs teve, daí que talvez pensassem que eu seria o próximo Steve.

Na verdade, dizem, é um dos cânceres mais mortais que existem, no entanto, como me explicou um dos quatro oncologistas que me atenderam em todo esse processo, o "milagre" foi ter descoberto o bicho cedo, quando tinha menos de dois centímetros, ao ponto de não ter sido possível apanhá-lo para fazer a biópsia antes de ir à faca. O cirurgião, por isso, disse que não havia retorno: fazer a cirurgia e depois confirmar a sua malignidade.

Antes da viagem, Valéria perguntou-me o que devia ser feito com o meu corpo se passasse desta para a melhor durante a cirurgia. Não podia ser mais directo: se pudesse, gostaria que as minhas cinzas fossem lançadas no mar de Cabo Verde, tão apenas por uma questão de "criolidade". No entanto, como não pretendo deixar mais encargos à família, que fosse enterrado aqui mesmo em Washington porque a minha alma já teria sido promovido à Glória. O resto era detalhe.

"Muito bom ter trabalhado no teu corpo…"

Horas depois de ter acordado da cirurgia, a Valéria disse-me que o cirurgião informou que tudo tinha corrido muito bem, mas… encontrou algo suspeito no fígado. Embora fosse de opinião que não era nada grave, devia fazer uns exames.. E mesmo com três bolsas penduradas no corpo, lá fui corredor abaixo para mais uma sessão de "fotos", com o técnico a encher-me de perguntas.

No dia seguinte, na primeira visita, o cirurgião deu-me as boas-vindas com isto: "foi muito bom ter trabalhado no teu corpo, reagiu muito bem". Com que então, meu corpo é bom,  homem????!!!!  Bom, lá me explicou que tinha sido mesmo um câncer que se desenvolveu no pâncreas, mas que acreditava que fora completamente extirpado. Os meus hábitos alimentares sofreriam algumas mudanças, para melhor, e que eu ia perder peso, mas tudo regressaria à normalidade. Antes, tinha de passar uns oito dias no hospital, dos quais, seis sem comer.

Dias depois, no seu lindo gabinete, rodeado de fotos da mulher, negra, e de dois filhos mulatos, já que ele é branco, confirmou que todas as células cancerígenas tinham sido retiradas e que, como ele desconfiava, a saliência no fígado era normal. Devolveu-me ao oncologista principal.

Dois anos depois, com menos 15 quilos, sinto-me muito bem, como de tudo, mas em quantidades moderadas, embora evite fritos, comida gordurosa, embutidos e derivados de porco (a única dor). Os exames feitos há pouco mais de um mês comprovam não haver qualquer sinal de reincidência, e que, sem bexiga, sem duas mamas, sem duodeno,  sem vesícula, sem parte da bexiga, pode-se viver e bem.

Referências

Não sou Narciso, não, apenas sinto que, como tenho feito desde que iniciei esta longa jornada em Maio de 2011, devo marcar essas datas como forma de agradecer a Deus pelas novas vidas que me tem dado, aos profissionais pela entrega e excelência - e de verdade tenho sido atendido por grandes profissionais - e destacar que na vida há referências que importa lembrar.

Quando chegam o cansaço, o desânimo, a tristeza, frustração, ofensas, incompreensões, olho para cada uma das minhas cicatrizes e lembro que sempre há uma nova oportunidade. São referências que me marcam e me empurram a levantar cada dia às 5.15 da manhã, com a certeza de que a misericórdia de Deus se renova cada manhã e que com Ele é possível vencer.

São referências que me estimulam a pensar que sem o apoio de profissionais, de gente que têm dedicado a sua vida a estudar como vencer as doenças, da família e dos amigos seria praticamente impossível superar obstáculos tão grandes como um câncer, ou melhor, quatro. Ninguém é forte o suficiente sozinho, mas somos muito mais fortes quando podemos estar cercados de pessoas que nos ajudam, a quem podemos recorrer, que oram por nós.

São referências que me levam a pensar e a acreditar que é possível vencer com fé, atitude positiva e muito trabalho. Sim, também para manter a saúde, há que trabalhar, na prevenção, nos cuidados com a mente e o corpo, na alimentação, no estrito cumprimento das recomendações médicas.

Sem referências não há vitórias porque são elas que marcam o caminho e são através delas que vamos vencendo cada etapa.

15 de Maio de 2014 é mais uma referência. A continuar...

terça-feira, abril 26, 2016

O primeiro dia da caminhada da liberdade


1992: Na era pré-computador pessoal, a minha máquina de escrever eléctrica. Em qualquer lugar, eu escrevia.
Há 25 anos, num dia como hoje, vi nascer, sob um sol radiante de Abril, um produto jornalístico que marcou defintivamente a minha vida profissional e pessoal. Em jeito de preâmbulo,  permitam-me dizer, sem vaidade mas com muito orgulho, ter sido esse dia um marco na luta pela afirmação de uma imprensa livre em Cabo Verde.

A 26 de Abril de 1991 nascia o jornal A Semana, uma das primeiras pedras a “brotar” do chão seco das ilhas para dar corpo ao edifício da democracia cabo-verdiana. O Governo saído das eleições de 13 de Janeiro mal tinha completado os 100 dias de graça e já tinha às pernas um jornal disposto a marcar a diferença: ser também ele um produto dos novos tempos e não filho de nenhum pai “primeiro e único”.

Lembro-me quando, num encontro qualquer, com aquele seu ar descontraído de quem convida a uma aventura perigosa como se fosse para um pique-nique, o Jorge Soares a dizer-me para fazer parte do projecto do jornal. A minha experiência como jornalista profissional era de apenas oito meses, ainda gatinhava nessa arte,  embora esse pequeno periodo na então Tevec estivesse  a ser muito intenso e produtivo.

Como qualquer caloiro amante do jornalismo disse que sim, sem discutir nada, nem o que ia fazer e muito menos qualquer subsídio ou avença, como se dizia na altura. O que sei é que ainda fui a tempo de participar na eleição do título do jornal e fiz "campanha" contra o próprio Jorge que defendia o nome Correio das Ilhas. Ganhou o A Semana. O Jorge é assim, democrata convicto. Comecei bem, pelos vistos.

Dois dias antes do primeiro número sair à rua, o colega Julio Vera-Cruz Martins foi agredido por um membro do Governo quando fazia a cobertura da instalação dos novos dirigentes nas residências oficiais. Era um sinal de que a luta seria enorme, frente a um poder a fazer a sua natural luta de afirmação, num mercado publicitário praticamente inexistente e numa situação completamente nova, tanto para os poderes públicos, em particular o Governo, como para os profissionais de comunicação. E para a sociedade, também.

Moderador de um dos debates da Fundação Friedrich Ebert, tendo como palestrante o actual Prsidente da República
A trajectória

Desse dia até Julho de 2000, quando decidi sair de Cabo Verde, vivi intensamente cada dia o jornal, mesmo não tendo um salário ou avença regular até o ano de 1994, quando as coisas começaram a melhorar. Pelo meio, participei como  moderador de seminários de algumas organizações não governamentais cujo debate era depois publicado, como uma forma creativa de ajudar a superar a crise financeira do jornal e nas despesas da casa.

Fiz de tudo: escrevi sobre todos os temas, responsabilizei-me pelo desporto, fiz de re-writter, assumi a edição vezes sem conta, fui fotógrafo, carreguei papel, transportei jornal, digitei textos, fui condutor, engoli sapos e dos grandes, nunca escolhi os temas que davam a capa ou a página 2, nem promovi o meu trabalho pessoal, não tive problemas em assumir papel secundário em assuntos que eu tinha investigado, paguei por coisas que não fiz. Mas nunca fui desonesto, mau carácter, preguiçoso, desleal, nem me aproveitei do jornal para nada.

Mas não me importava. O sonho de afrmação de um produto marcado para morrer, a juventude e a vontade de fazer o que mais gostava superavam as perdas tanto financeiras como de tempo para estar mais com a família. Como brincava o Lulu Cardoso da Silva, eu tinha 17 trabalhos e por isso, graças a Deus também,  provisão nunca faltou. Fazia televisão, apesar de demitido duas vezes por ser incómodo, editava revistas, escrevia textos, era correspondente de jornais internacionais e da Voz da América, dava aulas, fazia consultoria, os tempos exigiam e as repostas tinham de surgir. O meu filho cresceu entre aquelas mesas...

Ameaças não faltaram – inclusive que iam queimar o carro pessoal do Jorge -, cartas anónimas se amontoaram na gaveta, chegar à casa de madrugada exigia um cuidado redobrado, não sei quantas vezes encontrei as rodas do meu carro furadas, as quatro, os desfiles pelo tribunal se multiplicaram, amigos começaram a acreditar nas bocas que insinuavam alinhamentos partidários e políticos, investigações sobre eventuais ligações ao partido único multiplicavam-se. Mas como quem não deve não teme… Para a risada geral, um dos investigadores dessas pretensas ligações, cujo nome não revelo porque não está entre nós, disse-me que os dois jornalistas que na verdade tinham feito fretes à secreta já estavam alinhados com o novo poder!!!

Eram tempos difíceis, mas necessários. De um lado, ajudaram a desbravar o caminho e, do outro, encurtaram a minha aprendizagem na profissão e, principalmente, na minha afirmação como jornalista. Aprendi muito, com todos os colegas a quem pedia que me corrigissem, cedo entendi que o que aprendi em casa era pedra basilar da profissão - verdade - e procurei-a sempre, e descobri que muito mais importante do que se escreve ou de como se escreve, é criar uma relação verdadeira com fontes sérias e seguras.

Como sempre afimei nos círculos mais próximos, independentemente de quem estivesse no poder nessa primeira década, aqueles anos teriam sido mais ou menos semelhantes porque todos estávamos  a aprender. Creio que no jornal, aprendemos bem cedo e rapidamente, muito mais e melhor do que os políticos, de todos os quadrantes, e da própria sociedade. Me desculpem se isso roça a vaidade, mas não é.



Testes de afirmação

Lembro-me do primeiro grande teste do jornal, nas vésperas das primeiras eleições autárquicas de 1992. Uma entrevista ao então candidato do MpD, Jacinto Santos, em resposta a outra do candidato do PAICV, levou a Grafedito, propriedade daquele partido, a decidir pela suspensão da impressão do jornal. Jorge e eu fomos lá de madrugada e o jornal saiu à rua na véspera das eleições.

Mais tarde, aquando da primeira cisão do MpD, fomos conotados com Eurico Monteiro e o PCD, na eleição do secretário-geral do PAICV pós-1991 fomos acusados de fazer campanha por uma eventual candidatura de Corsino Tolentino, mais tarde os “conselheiros populares” disseram que ajudamos Jacinto Santos a criar o PRS e a fomentar o escândalo da Enacol, finalmente, fomos tachados de promotores da então List J, quando José Maria Neves concorreu contra Pedro Pires à liderança do PAICV.

Pelo meio, a supressão da publicidade das empresas públicas, que dominavam o mercado, a insistência de muitos membros do Governo em não falar com o jornal, as pressões da oposição para que o A Semana fosse o seu porta-voz, os processos judiciais com a benção da Procuradoria-Geral da República calejaram as nossas mãos, ao mesmo tempo que a maturidade democrática de Cabo Verde dava sinais de crescimento. É bom dizer que o poder de então também jogou a toalha ao ver que o jornal não estava  serviço de ninguém, mas consciente do seu papel. A pouco e pouco, a tensão distendeu-se e todos ganharam.

Tanto com Jorge Soares, um sonhador resiliente,  como Filomena Silva, guerreira com todas as letras, à frente, o jornal foi fazendo o seu caminho, que, volto a pedir que me desculpem, foi pioneiro no surgimento de uma imprensa livre em Cabo Verde. Houve dias de desânimo total, registaram-se muitas perdas pessoais, as portas por pouco não se fecharam, muito gente desisitiu, mas o A Semana seguiu e, com erros e muitos acertos, afirmou-se definitivamente como um farol para a imprensa das ilhas.

Uma nota: com tanta pressão e processos judiciais, uma janela foi aberta e o Jorge Soares decidiu exilar-se nos Estados Unidos, tendo recebido o tal estatuto pelas autoridades americanas.

Como disse anteriormente, deixei o jornal e o país em 2000.

Nessas Bodas de Prata, ergo a taça a todos que abraçaram esse projecto apelidado por muitos de “uma aventura sem futuro” em 1991. Com todos aprendi, com todos sofri e com todos venci, de todos tenho as melhores recordações. Ao Alírio Dias de Pina, actual director e o único que tem os 9.300 dias às costas, um “até sempre” e que continue o sonho.

O jornal comprovou, uma vez mais, uma verdade absoluta: “o choro pode durar uma noite, mas a alegria vem pela manhã”.


O sucesso honesto é dos que sonham e trabalham, melhorando sempre. Se fosse possível regressar no tempo, voltaria a abraçar o projecto A Semana, do qual sou filho e ao qual devo muito, como profissional e como homem.

domingo, março 20, 2016

Da sabedoria popular aos ciclos da vida


Cabo Verde começa a regressar nesta segunda-feira à normalidade, ou pelo menos, começa a contagem regressiva para o início de um novo ciclo. Espera-se que assim seja, diga-se em abono da verdade.

Os resultados da eleição legislativa de ontem poderão ter surpreendido apenas os mais distraídos, pela sua dimensão, admitindo, neste momento, que os dois partidos do arco do poder irão dividir as seis cadeiras no Parlamento reservadas à emigração.

Na verdade, quem estava no terreno ou quem, como eu, falava constantemente com quem aí se encontrava, sabia que muito dificilmente Janira Hopffer Almada e a sua entourage conseguiriam travar uma verdade absoluta: tudo que começa termina, ou seja, há um tempo para nascer e outro para morrer. São os ciclos da vida.

Num país com os desafios de Cabo Verde, mesmo com o aparelhamento do Estado, a nível central ou local – uma prática tanto do PAICV como do MpD, sem qualquer diferença –, muito dificilmente um partido pode manter-se por ciclos tão grandes no poder. As costuras cedem.

Em 2011, apesar de estar num dos momentos mais altos da sua gestão como primeiro-ministro, José Maria Neves teve de puxar de todos os argumentos e galões para conseguir o terceiro mandato. O tempo começava a pesar. Mas, felizmente para ele, tinha pela frente um adversário, Carlos Veiga, que fez, talvez, a sua pior decisão política: voltar a concorrer depois de ter saído da primatura pela porta pequena. E contra quem, na altura, tinha obra para apresentar.

Os fardos de JHA

Ao contrário, Janira Hopffer Almada encontrou à partida dois obstáculos difíceis, antes mesmo de entrar na estrada: a sua juventude, algo que ainda pesa quando está em causa a governação do país, e um adversário com obra feita na principal Câmara Municipa do país, apesar de também ter telhados de vidros, quando esteve à frente do Ministério das Finanças, mas no longínquo 2001, época em que os eleitores jovens de hoje ainda eram criancinhas.

À partida Hopffer Almada carregava nas suas costas alguns fardos, bem pesados:

-              - um terceiro mandato muito fraco a nível de realizações e de combate político, em que o      
ú      único escudo, e bombeiro, era José Maria Neves.

-             - uma gestão sem grandes resultados à frente do ministério, apesar da sua enorme    
       capacidade de trabalho, dedicação e genica, e em que a nomeação do marido para a   
       administração do INPS, sob sua tutela, foi uma nódoa.

-             - um PAICV partido e escangalhado depois do “fiasco” presidencial de 2011.

-              - Não ter feito uma transição política consentânea com o passado do PAICV dentro do partido, optando por não recorrer a alguns “tubarões” que têm as suas redes no terreno, ainda que apenas para o trabalho de sapa, e por apostar em figuras que já não representam muito junto do eleitorado, como Manuel Inocêncio Sousa e Eva Ortet, entre outros. A “sova” no Fogo e o terceiro lugar em São Vicente falam por si.

Para complicar ainda mais a situação, a jovem líder  tambarina, que vai ter tempo para se preparar para 2021, deu a cara por um Governo que deixou arrastar processos sem solução por muito tempo e sem qualquer outra justificação que não seja política ou má gestão: a TACV – que há três anos apontava para o cenário que vive hoje -, os deslocados de Chã das Caldeiras, a insegurança urbana e a falta de resposta ao desemprego.

Os excelentes dois anteriores mandatos (2001-2011) não podiam por si sós aguentar o PAICV no poder e a sabedoria popular optou por dizer “basta, vamos ver se Ulisses tem solução mesmo”.

UCS, corredor de fundo

O futuro primeiro-ministro aproveitou a elevada insatisfação popular para prometer solução e felicidade. Ulisses Correia e Silva começa um novo ciclo com um boa margem para governar e uma boa aceitação popular, mas com compromissos muito apertados. A taxa de crescimento anual de 7 por cento, os milhares de novos empregos, a solução para a TACV não se compadecem com pavimentações e urbanização da capital. O buraco é muito mais acima.

A expectativa é enorme e embora tenha um bom cartão postal, a cidade da Praia, Correia e Silva sabe que, como afirma erradamente o ditado “o tempo ruge”. Na verdade, a luta política de um primeiro-ministro não tem nada a ver com a de uma câmara, mas há um exemplo anterior de um autarca que deu bem no Governo, José Maria Neves.

A gestão da ansiedade popular será um dos primeiros desafios do novel primeiro-ministro, depois de colocar ordem no harén ventoínha, na hora de distribuir os tachos. É que há muito garfo para pouco prato, mas Ulisses tem-se mostrado um bom corredor da maratona. Não dado a muitos jogos, aponta caminhos e sabe para onde vai.

 Abstenção cívica

Se na verdade a sabedoria popular recomendou mudar o balaio dos ovos porque é hora de começar um novo ciclo, não é menos verdade que o MpD vai encontar um eleitorado muito mais exigente e menos paciente com os partidos e os políticos.

Esta é uma leitura da elevada abstenção registada na eleição de hoje, 33,7 por cento. Na verdade, a primeira leitura de qualquer taxa elevada de abstenção é um cartão vermelho aos políticos porque “todos são iguais”. Outra, é que nem o que está vai bem, nem o que vem irá mudar muita coisa.

Qualquer que seja a leitura, entendo que essa taxa elevada revela também uma enorme massa crítica de gente que começa a acreditar na pressão popular, na crítica, na reivindicação cidadã. Este poderá ser um novo ingrediente a se ter em conta no ciclo que agora começa e que vai para além de MpD/PAICV.


E por falar em ciclos e sabedoria, aguardo a decisão de José Maria Neves sobre uma eventual candidatura à Presidência da República porque quanto a Jorge Carlos Fonseca estamos conversados.