terça-feira, novembro 21, 2006

A mesquinice crioula

A posse do primeiro reitor da Universidade de Cabo Verde deve ser um marco no desenvolvimento do país e não apenas da educação das futuras gerações. Mais do que um sonho, a Universidade é um ponto de partida para um novo estágio no desenvolvimento do país, isso, segundo a minha opinião, se os decisores a entenderem como um espaço de formação de pensadores e investigadores sociais e não um simples lugar de atribuição de diplomas e/ou de satisfação pessoal de alguns pseudo-doutores.

Segundo o governo, este é mais um passo de um longo processo que começou há bastante tempo e que muitos, como eu, chegaram a duvidar que algum dia estaria perto de se concretizar. Agora, falta o resto, ou seja montar toda a estrutura física, económica e curricular de uma universidade a sério.

Enquanto aguardo os passos seguintes, que espero venham a ser consistentes, quero expressar a minha revolta pela mesquinice crioula que teima em toldar todo e qualquer sonho sério. Refiro-me a opiniões que por aí circulam questionando, por exemplo, se o reitor devia ou não ser doutor, um requisito que, creio, o governo deve ter tido em conta na hora da nomeação de Correia e Silva, personalidade que pessoalmente não conheço.

O que me irrita é essa pieguice alfacinha que, em vez de se entreter em olhar para o umbigo, não se atreve a lançar ideias concretas sobre o papel que deve ter a Universidade de Cabo Verde que, do meu ponto de vista, não pode ser uma cópia de estabelecimentos congéneres de Portugal, Brasil ou Estados Unidos. Faltam ideias, projectos e iniciativas ou esses devaneios são apenas fruto do mal dizer e da tradição bem crioula de apenas criticar?

O pior é que esta mesquinice crioula teima em passar de geração em geração e poucos são aqueles que se atrevem a olhar para o futuro e a propor, ainda que contra a corrente, iniciativas que, de facto, possam dar lugar a debates que, por sua vez, redundem em medidas de política. Acredito que isso só acontecerá quando os pensadores colocarem de lado a sua cor política ou sentimentos e desejos pessoais e começarem a pensar Cabo Verde. Mas não desde os cafés de Lisboa, Paris, Rio de Janeiro ou Boston.

Isto não significa que aqueles que, como eu, estão no estrangeiro não têm voz nem vez no processo do desenvolvimento do país. Muito pelo contrário, devemos participar no mesmo patamar que aqueles que estão na terra, mas devemos pensar Cabo Verde e não apenas copiar fórmulas que até podem ter dado certo nos países que nos acolhem.

2 comentários:

Tunney disse...

Olá Álvaro, li e gostei de todos os textos do blog mas deste gostei mais pq eu tb reconheço e discordo da mesquinice crioula. Acho que após 31 anos de independencia já está mais do que na hora de começarmos a pensar em construir um Cabo Verde à moda caboverdeana. Um grande abraço amigo. Tunney.

Alice Sena disse...

Também eu gostei imenso deste artigo pois como tu, fiquei deveras revoltada, com os pseudo-avaliadores que abundam na nossa terra...
Muito mais ainda quando se conhece o Correia e Silva, se vê e se sente o sério que é e a capacidade e a dinâmica que tem incutido ao projecto da criação da Universidade de Cabo Verde. Pode-se dizer que é um sábio e simples. De uma simplicidade, tanta, que deve ser essa humildade pouco comum nos caboverdianos que incomoda os doutores que por cá abundam...
Eu acredito muito nesse homem e tenho a certesa (e podes crer também) que a Universidade será uma realidade. Ele está a coordenar e a fazer para que a dimensão caboverdiana ganhe peso através da apalpação e o esmiuçar das diferentes dimensões...
Um abração. Licinha