quarta-feira, abril 13, 2011

O regresso ao meu futuro

Passada a loucura da pré-campanha, campanha e pós-campanha, creio ser tempo de botar algumas coisas para fora, essas que quase me levaram à ira, mas que, felizmente, com a ajuda divina e da familia, foi possível evitar que se pusesse sobre a minha cabeça. Nesse período, ou aliás bem antes, fartei de ler coisas sobre mim e a minha actividade profissional que, em determinadas ocasiões, optei por rir, noutras comecei por responder mas depois decidi apertar "delete" e em algumas lamentei por ver a pequenez da mente de auto-pseudo-iluminados e faltos de carácter.







A festa começou pelo Liberal que entendeu ser a TCV uma arma de arremesso político, num país com tantos problemas por resolver, e que, sem respeito por quem trabalha, desatou a ver amarelo onde era azul. Sem me conhecerem minimamente, os grandes jornalistas atiraram contra mim todo o tipo de adjectivos quando os alvos deviam ser outros. Pelo menos para quem é inteligente.


Em catadupa, mas sempre mordendo e soprando, surgiram os candidatos a puxa-saco e a oba-boa, num festival de mediocridade técnica, política e de carácter. Nos rodapés, surgiam então os comentadores online de serviço, sempre a coberto do mais autêntico dos cabo-verdianos, o anónimo. Este, creio, chegou antes dos descobridores portugueses.


Dava dó ler algumas prosas e ouvir determinadas conferências de imprensa de candidatos a nada, de fato e gravata, num português tão mal articulado como atrofiadas eram as intenções das suas ideias. Ria-me com a pose. Olhavam para as câmaras com aquele olhar dito intelectual, precoupados e pensavam que estavam mesmo a propor coisas sérias. O pior é que o grupo de oba-oba, de dentro e de fora, acreditava no que pensava estar a dizer.




No meio de todo este teatro de quinta, recebi mensagens como "vamos correr contigo", "quero ver onde vais trabalhar", " vais regressar à emigração" ou "estás a tremer de medo porque vais deixar a direcção da TCV". Os colegas de trabalho e afins -porque em casa estamos conversados -, sabem como me divertia com esses recados, ao mesmo tempo que me sentia triste por ver pessoas que se candidatavam a cargos na administração política do meu país com essa mentalidade que, pensei, tinha ficado nos arquivos dos primeiros anos da década de 1990 ou, pior, no regime de partido único. Mais estragado ficava ao notar que eram jovens, mas de mente tão curta e pobres de carácter.


Outros diziam ser jornalistas, e aqui e acolá ensaiavam poses, alguns colocavam até fotos em colunas redigidas ao abrigo do Acordo Ortográfico, que ainda não está em vigor em Cabo Verde. Mais atrevidos, surgiam alguns que se apelidavam de assessores do líder tal ... Para mim apenas acessórios! Até começaram a dividir tachos!




"Alguém me perguntou se quero ficar aqui ou se este é o meu sonho?", fiz-me esta pergunta várias vezes. O pior é que se a tivesse formulado a esses candidatos a puxa-saco teriam respondido que sim.Muitas vezes, entre os meus botões, regressei a Outubro de 1990 quando, junto com outros colegas da então TNCV, participei na redacção do primeiro memorando de protesto conta a manipulação informativa e, também, da reacção à dura resposta enviada à tutela. Lembrei-me ainda que, em Novembro desse ano, e contra a minha vontade inicial, protagonizei algo que só agora vejo ser motivo de referência, antes que a memória desapareça: fui o primeiro Chefe de Informação de um orgão de comunicação em Cabo Verde eleito pelos seus pares. Na altura, também impus uma condição: no dia 14 de Janeiro de 1991 alguém tomaria o lugar porque aquilo não era para mim. No dia 15 entreguei tudo.


Nesses dias, a minha mente voou também pelos tempos de combate pela afirmação da AJOC, pela coragem de um grupo de "doidos", como muitos colegas nos chamaram, quando decidimos criar o primeiro e verdadeiro jornal privado e independente de Cabo Verde, e por um período fértil de um jornalismo investigativo e de denúncia, que gostaria de ver ganhar novos patamares nos dias de hoje. Lembro-me, por exemplo, de quando eu e os meus colegas de A Semana desfilávamos pelo tribunal semanalmente apenas porque alguém nos processou, sem pés nem cabeça, mas tão-somente para nos chatear, fazer perder tempo ou tentar calar-nos.



Pela minha mente passaram ainda muitos episódios de 20 anos de jornalismo, com dignidade e profissionalismo, em Cabo Verde e no estrangeiro. O filme discorreu pelos capítulos da renovação tecnológica e de conteúdo da TCV em curso, pelos debates produzidos durante o recente período eleitoral, pela excelente cobertura eleitoral realizada pelos meus colegas. Do outro lado da barricada, vi os candidatos a puxa-saco e ao oba-oba, sem obra feita e sem muitos tijolos à mão.


Ao ouvir, ver e ler esses escribas, também lembrei-me de uma pequena história narrada na Biblia em que um homem, que estava fazendo o seu trabalho, foi convidado a deixar tudo e a ir ficar com os que nada faziam. Ele respondeu "não desço porque estou fazendo uma grande obra".




Este post pode parecer demasiado egocêntrico, mas é sempre bom dar voz à alma e aos sentimentos. E quem tem Deus sempre do lado, a família que tenho, os amigos que considero e a cabeça erguida, pode sempre bater no peito, não por vaidade ou orgulho, mas por ombridade, por outras palavras, por ser homem.








8 comentários:

Germine - Gestão e Assessoria Ministerial disse...

Aprecio o espírito franco da postagem. Parabéns meu brother Alvaro. Regressar ao futuro é privilégio dos homens sérios e de caráter. Muitíssimas felicidades.

Álvaro Ludgero Andrade disse...

Prezado Pastor, obrigado pelas lindas e sábias palavras. Deus abençoe sempre. Abraço.

JACeschin disse...

Pronto. Falou o que tinha que falar e desabafou. Agora, levante a cabeça e não olhe mais para esses negativistas. Sua capacidade, para mim, está mais do que provada e comprovada.

Álvaro Ludgero Andrade disse...

Grande JAC. Aquele abraço porque as suas palavras têm o peso que têm, mito. Em breve colocaremos a escrita em dia. Inté. Beijo na patroa.

Galileu disse...

Infelizmente as pessoas em Cabo Verde não sabem fazer críticas(construtivas) sem insultar os outros exemplo disso é o nosso primeiro-ministro. Todos os cabo-verdianos almejam uma televisão cada vez mais independente, com seriedade, rigor e equidade na transmissão das noticias. Gostei muito dos debates eleitorais, mas ainda temos um longo caminho a percorrer. Uma grande conquista seria ter uma emissão 24h/dia, uma vez já estamos cerca de 30 anos com emissões parciais. Temos que abstrair das ofensas pessoais e seguir em frente ...

Nathan disse...

Força e coragem compadre e realmente tens razão de que quem tem Deus e Familia ao lado tem tudo. Um abração!

Álvaro Ludgero Andrade disse...

Prezado Galileu, obrigado pela visita e comentários bem precisos. Pode estar tranquilo que a mim as críticas não me afectam e olho de frente aos que as fazem. Apenas as analiso e tomo em devida conta aquelas que creio serem construtivas. Embora este blog seja pessoal, digo-lhe que não é dificil chegar a 24 horas com a TCV, mas falta muito conteúdo e para isso é necessário reformular o formato e o financiamento da tv pública, que não deve ser o que vejo por aí nas opiniões: uma tv concorrente com as privadas. Tal não existe em parte alguma do mundo civilizado, à excepção da BBC, que é excepção. Abraço Nathan, Mantenhas a todos.

Jonatas disse...

Ola Alvarito. Olha em primeiro lugar felicitar-te pelo bom e magnifico trabalho que estas a fazer ali pela nossa comunicacao social. Doa quem doer pelo trabalho que esta sendo feito tenho que dizer "bem haja". Fico contente em ver pela primeira vez quase todos os dias as noticias do jornal da noite que e mesmo um trabalho formidavel. Continua a fazer este trabalho que Deus vai-te abencoar acredita mesmo. Continuacao de um bom trabalho. Um abraco seu amigo sempre, Jonatas Sa Nogueira.