quarta-feira, novembro 21, 2012

Vida com propósito, apesar de um câncer



Um  ano após a cirurgia de remoção do câncer na bexiga, a 21 de Novembro de 2011, publico hoje uma conferência-testemunho pessoal que apresentei no jantar da Associação de Homens de Negócios do Evangelho Pleno, no passado 5 de Outubro, no Mindelo, São Vicente. Este extracto fará parte de um livro que tenho na forja.

A experiência de viver numa das cidades mais in do mundo, Miami, durante mais de oito anos e trabalhar para uma organização internacional de rádios, com sede em Birmingham, Inglaterra, e delegações no Chile, África do Sul, Zâmbia, Austrália, Ucrânia e Índia, estava sendo muito boa. A isto, acrescentei uma esposa virtuosa, um tesouro autêntico, e duas filhas, gémeas, para animar a caminhada para a terceira idade.

Fazia o que gostava, jornalismo, e ainda me pagavam, dirigindo dois serviços de notícias, em Português e em Espanhol. Tinha a oportunidade de viajar pelo mundo para conferências e cobrir eventos como os Jogos Olímpicos de Atenas, em 2004, o Mundial de Futebol de Alemanha, em 2006, ou os Jogos Panamericanos do Rio de Janeiro, em 2007.

Um dia, fazendo o meu footing vespertino, senti que Deus me dissera que era hora de regressar a Cabo Verde para fazer o que para o qual ele me tinha preparado nesses oito anos em Miami: ajudar as pessoas da minha terra a viverem o verdadeiro Evangelho, sem religiosidades, participar num projecto de comunicação social com valores cristãos e fazer alguma obra social. Quanto à minha esposa Valéria não foi necessária nenhuma limpeza cerebral: Deus preparara o seu coração quando visitou Cabo Verde em 2007.

O regresso foi agendado para 2009 e tudo estava sendo preparado para esse ano, mas em Setembro, de 2008 recebi um convite para integrar o Conselho de Administração da Radiotelevisão Caboverdiana e, assim, trabalhar num projecto apelativo: modernizar a empresa da qual fui expulso pelas “cabo-verduras” da década de 1990.

Depois de um intenso programa de digitalização da TCV e da RCV e de uma cobertura exemplar e única das eleições legislativas de 2011, quando tudo apontava para uma fase de um trabalho profundo ao nível da qualidade do produto, dou de frente com um problema que há algum tempo suspeitava, mas que adiava diariamente.

Apertado entre a minha esposa e um urologista amigo e primo, em dois dias realizei três exames que confirmaram a necessidade de um tratamento no exterior por falta de meios em Cabo Verde. O aviso foi forte: “tens de sair e já”.

No regresso à casa o ambiente estava pesado, mas convidado pela Valéria fui ao farol da Praia. Aí o desafio foi: “vamos chorar tudo aqui, clamar a Deus,  entregar a caminhada de agora em diante totalmente nas suas mãos e olhar para essa Praia à qual regressaremos para continuar o trabalho”. A realidade mudara abrupta e radicalmente e, uma semana depois, estava a caminho dos Estados Unidos.

A viagem foi talvez a mais tranquila que fiz em toda a minha vida, tendo, nessas sete horas, entendido o sentido da expressão bíblica que diz “a paz de Deus supera todo o entendimento”. No dia seguinte, fui ao hospital que confirmou a existência do tumor na bexiga e me recomendou um urologista. Nesse mesmo dia, Deus abriu uma das mais importantes portas em todo esse processo: a garantia do seguro médico totalmente gratuito para uma doença de tratamento longo e oneroso.

A fatalidade humana

Uma semana depois o urologista confirmou o diagnóstico e marcou para 1 de Junho a remoção do tumor. Depois da operação inesperadamente longa, 90 minutos, o médico confirmou à Valéria que era câncer e que tinha mandado uma amostra ao laboratório para determinar até onde a doença se tinha alastrado.

O resultado chegou: câncer de categoria 2, que infiltrou a membrana da bexiga  que teria de ser removida. O tratamento a seguir seria quimioterapia durante alguns meses e uma longa e complicada operação para remoção da bexiga e criação de outra a partir de um pedaço do intestino delgado. Pelo meio, o perigo de, a qualquer momento, haver metástase.

Complicado para mim compreender o processo, mas a minha mente voltou a enfocar-se na minha confiança em Deus e numa imagem que me tinha aparecido meses antes ainda em Cabo Verde, enquanto dormia, mas que só nesse momento entendi: cancer survivor.

Depois de sair do consultório, fui a um café com  Valéria e minha cunhada. Entrei na casa-de-banho e foi o único momento em que chorei, e muito. Nessa altura pedi a Deus que me deixasse ver crescer as minhas filhas e renovei o meu compromisso de fazer o que Ele tinha proposto para a minha vida.

Lembrei-me de algo que aprendi com a Valéria, a partir da experiência dela que, aos 16 anos, e depois de um acidente recebeu a sentença dos médicos: “ficarás tetraplégica”. Foi então que, socorrendo-se da sua fé, fez um pacto com Deus: “tira-me desta cama e eu anunciarei o teu Evangelho aonde me enviares”. Ela está aqui hoje, ao meu lado, em Cabo Verde. Fiz, então, o meu pacto com Deus.

A partir de então, e enquanto o cirurgião, a oncologista e o urologista definiam o plano de tratamento, decidi usar este processo para a glorificação de Deus, pedindo a oração dos  cristãos que me conhecem em Cabo Verde e em várias partes do mundo, ao mesmo tempo que trabalhava mesmo à distância para a RTC e para duas agências de notícias internacionais, assim como mantinha uma intensa participação nas actividades da Igreja do Nazareno em New Bedford.

Com a  minha família por perto - Valéria, as meninas e os dois rapazes que moram na Flórida visitando quando podiam - e o grande apoio da família do meu irmão, que me acolheu, comecei uma longa jornada em que o organismo tinha de responder a medicamentos muito fortes e a mente não podia falhar. O espírito jamais podia enfraquecer. Conheci então, de forma particular e especial, a graça de Deus que me permitia receber a visita de amigos e, no final, ouvir: “viemos aqui para te dar uma força e és tu que nos encorajas”.

Durante este percurso, aproximei-me mais e conheci a Deus muito melhor. Aprendi que ele vê o processo concluído, enquanto nós vamos vendo e protagonizando cenas diárias, com a visão bloqueada pelo pôr-do-sol.  O amanhecer de cada dia podia ser difícil ou fácil, dependendo de onde colocava a minha mente: na doença e na sua fatalidade humana ou em Deus e nas suas promessas.

Nesse processo, uma conclusão óbvia: as forças humanas não bastam, há que procurar a ajuda divina e ela vem apenas com a oração. O exemplo partiu da minha mãe que em vez de choramingar, decidiu ajoelhar. Aos 84 anos!

O desafio ao corpo e à alma

O tratamento com quimioterapia estava previsto para durar seis meses e a operação para Janeiro de 2012, data que, na minha mente, nunca aceitei. Disse a Deus claramente: quero ser operado o mais tardar em Novembro para poder regressar rapidamente a Cabo Verde e retomar a minha vida.

Na primeira semana de tratamento tive alguns enjoos e tonturas, não muito fortes devido aos excelentes medicamentos usados nos EUA e à excelência dos profissionais. Ao contrário da indicação médica, o cabelo não caiu de todo e o corpo resistia bem aos medicamentos, o que me dava a sensação de que o calvário, afinal, podia não ser tão difícil. Dois meses após o início da quimioterapia, o primeiro exame indicava que o tumor se tinha reduzido, o que foi uma boa notícia.

Deus trabalhava de forma diferente daquela que eu pensava e pedia. Ele conhecia o fim e eu ainda estava entretido com os capítulos iniciais desta novela real. A dicotomia radicava em descansar e esperar em Deus, ao mesmo tempo que aguardava pelos resultados esperados. Dois meses depois, com o segundo exame, veio o alerta, ou melhor, a novela entrava no caminho escrito por Deus: o tumor tinha regressado e eu comecei a ver sangue na urina, como antes da cirurgia para a remoção do tumor.

Antes do segundo exame, uma lição extraordinária: pedi a Deus que o câncer desaparecesse e esperava um resultado nesse sentido, mas tal não aconteceu. No entanto, Ele estava trabalhando de outra forma. A oncologista, que definiu o tratamento de seis meses e a operação para Janeiro do ano seguinte, teve de ausentar-se do país e um outro médico analisou o exame e concluiu: “é hora de avançarmos para a operação porque o tumor pode voltar a crescer e sair da bexiga, onde ainda se encontra localizado”. Quando a oncologista, por sinal a Directora do Centro de Tratamento, regressou, encontrou o plano da cirurgia pronto. Se havia algum obstáculo, Deus o removera.

O resultado negativo do segundo exame e que contraria toda a lógica inicial, deveu-se a um factor que vim conhecer apenas depois da operação final: o tratamento de quimioterapia não estava a surtir efeito, por isso a não queda de cabelo na totalidade, por exemplo. A biopsia final confirmou que desenvolvi células raras, que resistiram ao tratamento,  o que acontece em apenas 3 a 4% dos casos em todo mundo.

Nessa altura, enquanto alguns familiares começaram a se preocupar com a notícia, lembrei-me do meu pedido e aguardei a operação que viria a acontecer a 21 de Novembro de 2011. No dia marcado, o cirurgião disse-me a mim, à Valéria e ao meu irmão que estavam comigo que a operação seria longa e complexa e que, caso o câncer não estivesse circunscrito apenas à bexiga, ele não poderia fazer a operação.

Como se pode imaginar, não foi uma notícia muito alegre, mas tinha acordado com uma certeza na minha mente: quando despertasse veria a minha família feliz ou entraria num lugar muito iluminado que, na minha mente finita e humanamente formada, seria o céu. Por isso, estava tranquilo sabendo também que havia um povo orando por mim, particularmente na Igreja da Praia que abriu as portas do templo para orações e jejum até o fim da cirurgia.

Oito horas e meia foi o tempo que durou a cirurgia, durante a qual foi-me removida a bexiga completamente e criada outra com 50 centímetros do intestino delgado, além de várias outras conexões internas. “O tempo não passava”, disse-me mais tarde a Valéria, que estava em permanente conexão com pessoas de várias partes do mundo, através do Facebook, as quais oravam e queriam ter notícias. Vim a saber depois que alguns colegas que nunca tinham orado e professam a fé católica estiveram na igreja pedindo a Deus por mim.

Quando acordei da operação, além da família que estava feliz e um amigo de infância, vi o cirurgião fazer-me o sinal de que tudo tinha corrido na perfeição. O relato da operação, transcrito e que faz parte do meu arquivo pessoal, diz que a operação decorreu “sem qualquer complicação”. No entanto, faltava a prova final: o resultado da biopsia para saber se tinha havido metástase no corpo ou se tudo tinha sido removido.

Da esperança à certeza

Entrementes, a recuperação começava no hospital, com três buracos na barriga quatro sondas, muita incomodidade e previsão de seis dias à base de soro, sem qualquer tipo de alimentação sólida.  No dia a seguir à cirurgia consegui caminhar 20  minutos e, nos demais, enfermeiros e médicos se surpreendiam com a minha recuperação. Regressei à casa depois de nove dias.

Os dias seguintes constituíram uma fase muito interessante, de permanente luta mental e espiritual, ao mesmo tempo que assistia calado à ansiedade cada vez crescente da Valéria, da minha mãe que também foi aos EUA para me apoiar, do meu irmão e cunhada, assim como da restante família que estava em Cabo Verde. A possibilidade de metástase existia e só o resultado da biopsia poderia confirmar ou não.  Em caso positivo, teria de regressar nos Estados Unidos e refazer a vida lá, numa situação bem diferente, tanto do ponto de vista laboral, como do seguro médico.

A espera do resultado parecia uma eternidade. A Valéria e a minha cunhada decidiram ligar ao médico antes do dia da consulta para saber o resultado que, no entanto, já devia ter saído. Nesse dia mantive-me calado, na minha luta interna aprendia a cada segundo que a hora era de descansar porque o fim dessa novela real estava escrito. O cirurgião ligou no fim do dia, enquanto a ansiedade aumentava e os olhares se cruzavam entre os quartos, a cozinha e a sala de estar.

A resposta foi a que Deus tinha escrito desde o início desta história: o câncer foi totalmente removido e não houve qualquer invasão do corpo, ou seja, não houve metástase. A festa foi de arromba, mas principalmente de muita gratidão a Deus e a todos os amigos que se juntaram a mim nessa luta. Enquanto isso, tive de consolar um amigo que perdeu a esposa, de 50 anos, devido a um câncer fulminante num período de seis meses.

Em casa mantinha um intenso processo de recuperação, física e mental, de controlo da nova bexiga e da urina. A oncologista espantou-se com a minha recuperação e as enfermeiras no Centro de Tratamento de Câncer de Saint Luke ficaram boquiabertas quando me viram.

Para quando o regresso a Cabo Verde? O prognóstico do cirurgião apontava para um período de seis meses após a operação, mas, um mês depois, ele o reduziu para três meses. Deus continuava a trabalhar e no dia em que se completaram dois meses após a cirurgia, o médico me deu alta. Fez alguns exames definitivos e estabeleceu, com a oncologista, um controlo a cada seis meses, durante os próximos dois anos e anualmente durante mais três anos. O primeiro foi feito em Junho e com bons resultados.

Os alicerces

Num processo como este, ver a morte é a parte mais fácil e imediata, mas ver a vida só pode acontecer quando esperamos que Deus preservará a nossa vida porque ele tem um propósito para e com ela. A vida sem propósitos não interessa a ninguém, nem a Deus, por isso entendi que devia continuar a tocar a minha vida para frente.

Escrevia diariamente para uma agência de notícias em Portugal, participei nas noites eleitorais dos dois turnos da eleição presidencial por telefone, trabalhei com um amigo vários projectos de investimento de americanos em Cabo Verde, fui a Washington para uma conferencia sobre direitos de autor, escrevi várias lições para classes da Escola Dominical, estive activo na igreja local, participei em dois wokshops da Cape Verdean American Media Association, passeava com as minhas filhas e Valéria, enfim, mantinha uma atitude que não podia, em nenhum momento, indicar qualquer tipo de dúvida em relação ao plano de Deus.

As pequenas coisas que a vida nos oferece têm grande valor e devem ser aceites como dádivas divinas, as quais têm de ser preservadas, como a visita de um amigo, o sorriso de uma criança, uma bandeja de pastéis de uma senhora de 80 anos ou uma panela de canja oferecida com amor.

Mas qual é a base de tudo isto? Qualquer homem de negócios ou profissional sabe que a formação, a experiência e a capacidade de trabalho dos seus empregados, uma gestão cuidadosa e proactiva e investimentos seguros garantem retornos à empresa.

E na nossa vida? Qual é o segredo dela ser bem sucedida? Será que tão somente nos bons e recomendáveis alicerces que nós mesmos fundamos com uma sólida formação, carreira bem construída, carácter irrepreensível e grande capacidade de trabalho?

Com 49 anos de idade e uma vida que considero muito intensa e diversificada, tanto como estudante, desportista, jovem activo na igreja e na sociedade, estudante no estrangeiro, profissional duma classe com algum reconhecimento, uma carreira recheada de desafios e sucessos, no país e no estrangeiro, sem nenhum problema de enquadramento nos diversos espaços em que circulo, concluo que a vida só pode ser vivida de forma integral e para isso, apenas Deus pode capacitar-nos para enfrentarmos o lado da nossa existência cujos aspectos não construímos porque nos ultrapassam.

Todo o ser humano reconhece existir algo superior ao ser finito e limitado, uns falam em energias, outros em karmas, outros em divindades, outros em Yin e Iang, outros em alá, etc. Eu encontrei a Deus que me deu a vida para viver de forma intensa, com um propósito, como profissional que preza muito o saber fazer e fazer bem, porque é uma exigência do próprio Deus de excelência.

Deus está em todo o lugar e o encontramos tão facilmente como o vento que bate na nossa cara, se tão-somente o procurarmos na simplicidade da sua existência, sem tabus nem dogmas, apenas submetendo o nosso viver ao seu padrão de qualidade superior. Para isso, Ele mesmo nos ajuda a encontrá-lo e a conhecê-lo, e, ao mesmo tempo, como um amigo que dá um abraço forte e apertado, nos oferece uma vida em abundância e com propósito.

Há dois meios para o fazer: através da oração, quando falamos com Deus sem regras, nem rezas, nem frases memorizadas,  mas apenas dizemos o que nos vai na alma, e lendo a Bíblia, como o manual de uma vida de excelência.

Uma vida com propósito, é uma vida de compromissos e o melhor de todos é a aliança que podemos e devemos fazer com Deus. É um investimento seguro e eterno.


Testemunho pessoal apresentado no jantar da Associação de Homens de Negócios do Evangelho Pleno (Adhonep), a 5 de Outubro, no Mindelo.

2 comentários:

I.G.R.E.J.A. disse...

Olá Álvaro como a neve.

Que o Senhor Jesus te abençoe, e te renove a cada dia.

Estarei a orar por ti.

Um forte abraço.

Anónimo disse...

Olá, Álvaro.
Um "olá" amigo é o que me permito enviar-lhe. Fiquei bem com o seu depoimento. Não porque atravesse um momento igual mas porque já me aconteceu algo de semelhante. O contraste é que você estava "acompanhado",eu estava "só", não obstante o calor humano da família que muito amo e muito me ajudou, já lá vão quatro anos.
Gostei do seu depoimento, gosto de si, gosto dos seus filhinhos sem os conhecer, da sua companheira de todos os dias, mãe dos seus filhos; gosto da fé com que você se veste e do amor com que se entrega a esta vida efémera que "vale o que vale" mas que tem, também, momentos lindos. Obrigado Álvaro pelo seu depoimento, fez-me bem, aos 71 anos.
Um enorme abraço
Armando Sousa
armandopsousa@hotmail.com