domingo, março 20, 2016

Da sabedoria popular aos ciclos da vida


Cabo Verde começa a regressar nesta segunda-feira à normalidade, ou pelo menos, começa a contagem regressiva para o início de um novo ciclo. Espera-se que assim seja, diga-se em abono da verdade.

Os resultados da eleição legislativa de ontem poderão ter surpreendido apenas os mais distraídos, pela sua dimensão, admitindo, neste momento, que os dois partidos do arco do poder irão dividir as seis cadeiras no Parlamento reservadas à emigração.

Na verdade, quem estava no terreno ou quem, como eu, falava constantemente com quem aí se encontrava, sabia que muito dificilmente Janira Hopffer Almada e a sua entourage conseguiriam travar uma verdade absoluta: tudo que começa termina, ou seja, há um tempo para nascer e outro para morrer. São os ciclos da vida.

Num país com os desafios de Cabo Verde, mesmo com o aparelhamento do Estado, a nível central ou local – uma prática tanto do PAICV como do MpD, sem qualquer diferença –, muito dificilmente um partido pode manter-se por ciclos tão grandes no poder. As costuras cedem.

Em 2011, apesar de estar num dos momentos mais altos da sua gestão como primeiro-ministro, José Maria Neves teve de puxar de todos os argumentos e galões para conseguir o terceiro mandato. O tempo começava a pesar. Mas, felizmente para ele, tinha pela frente um adversário, Carlos Veiga, que fez, talvez, a sua pior decisão política: voltar a concorrer depois de ter saído da primatura pela porta pequena. E contra quem, na altura, tinha obra para apresentar.

Os fardos de JHA

Ao contrário, Janira Hopffer Almada encontrou à partida dois obstáculos difíceis, antes mesmo de entrar na estrada: a sua juventude, algo que ainda pesa quando está em causa a governação do país, e um adversário com obra feita na principal Câmara Municipa do país, apesar de também ter telhados de vidros, quando esteve à frente do Ministério das Finanças, mas no longínquo 2001, época em que os eleitores jovens de hoje ainda eram criancinhas.

À partida Hopffer Almada carregava nas suas costas alguns fardos, bem pesados:

-              - um terceiro mandato muito fraco a nível de realizações e de combate político, em que o      
ú      único escudo, e bombeiro, era José Maria Neves.

-             - uma gestão sem grandes resultados à frente do ministério, apesar da sua enorme    
       capacidade de trabalho, dedicação e genica, e em que a nomeação do marido para a   
       administração do INPS, sob sua tutela, foi uma nódoa.

-             - um PAICV partido e escangalhado depois do “fiasco” presidencial de 2011.

-              - Não ter feito uma transição política consentânea com o passado do PAICV dentro do partido, optando por não recorrer a alguns “tubarões” que têm as suas redes no terreno, ainda que apenas para o trabalho de sapa, e por apostar em figuras que já não representam muito junto do eleitorado, como Manuel Inocêncio Sousa e Eva Ortet, entre outros. A “sova” no Fogo e o terceiro lugar em São Vicente falam por si.

Para complicar ainda mais a situação, a jovem líder  tambarina, que vai ter tempo para se preparar para 2021, deu a cara por um Governo que deixou arrastar processos sem solução por muito tempo e sem qualquer outra justificação que não seja política ou má gestão: a TACV – que há três anos apontava para o cenário que vive hoje -, os deslocados de Chã das Caldeiras, a insegurança urbana e a falta de resposta ao desemprego.

Os excelentes dois anteriores mandatos (2001-2011) não podiam por si sós aguentar o PAICV no poder e a sabedoria popular optou por dizer “basta, vamos ver se Ulisses tem solução mesmo”.

UCS, corredor de fundo

O futuro primeiro-ministro aproveitou a elevada insatisfação popular para prometer solução e felicidade. Ulisses Correia e Silva começa um novo ciclo com um boa margem para governar e uma boa aceitação popular, mas com compromissos muito apertados. A taxa de crescimento anual de 7 por cento, os milhares de novos empregos, a solução para a TACV não se compadecem com pavimentações e urbanização da capital. O buraco é muito mais acima.

A expectativa é enorme e embora tenha um bom cartão postal, a cidade da Praia, Correia e Silva sabe que, como afirma erradamente o ditado “o tempo ruge”. Na verdade, a luta política de um primeiro-ministro não tem nada a ver com a de uma câmara, mas há um exemplo anterior de um autarca que deu bem no Governo, José Maria Neves.

A gestão da ansiedade popular será um dos primeiros desafios do novel primeiro-ministro, depois de colocar ordem no harén ventoínha, na hora de distribuir os tachos. É que há muito garfo para pouco prato, mas Ulisses tem-se mostrado um bom corredor da maratona. Não dado a muitos jogos, aponta caminhos e sabe para onde vai.

 Abstenção cívica

Se na verdade a sabedoria popular recomendou mudar o balaio dos ovos porque é hora de começar um novo ciclo, não é menos verdade que o MpD vai encontar um eleitorado muito mais exigente e menos paciente com os partidos e os políticos.

Esta é uma leitura da elevada abstenção registada na eleição de hoje, 33,7 por cento. Na verdade, a primeira leitura de qualquer taxa elevada de abstenção é um cartão vermelho aos políticos porque “todos são iguais”. Outra, é que nem o que está vai bem, nem o que vem irá mudar muita coisa.

Qualquer que seja a leitura, entendo que essa taxa elevada revela também uma enorme massa crítica de gente que começa a acreditar na pressão popular, na crítica, na reivindicação cidadã. Este poderá ser um novo ingrediente a se ter em conta no ciclo que agora começa e que vai para além de MpD/PAICV.


E por falar em ciclos e sabedoria, aguardo a decisão de José Maria Neves sobre uma eventual candidatura à Presidência da República porque quanto a Jorge Carlos Fonseca estamos conversados.

2 comentários:

Marco Além disse...

Com os melhores cumprimentos, será que me pode esclarecer que obras fez Ulisses quando afirma "e um adversário com obra feita na principal Câmara Municipa do país"?
Antecipadamente agradecido

Voa Portugues disse...

Meu caro, tive um problema com o blog e só agora vejo o seu comentário, que agradeço. Na verdade UCS fez muita obra, que se critique que foi insuficiente ou que não foram as mais felizes, é outra leitura. Quem, como eu, chegou à Praia em 2008 e saiu em 2013, viu a diferença.

Abraço e visite sempre.