domingo, setembro 25, 2016

Kond muskinha amjá (expressão idiomática mindelense)


Há coisas que nos deixam confundidos, por mais experientes que sejamos, e que podem tirar-nos do foco, ainda que elas sejam aparentemente insignificantes.
O segundo semestre deste ano para mim chegava com duas datas marcantes: a cobertura dos Jogos Olímpicos Rio-2016 em Agosto e o controlo médico em Outubro. Ambas, com uma forte carga emocional, já que a primeira acarretava uma enorme responsabilidade profissional e teria lugar numa região apontada pela imprensa mundial e pela opinião pública brasileira como um inferno (zika, violência e protestos) e a segunda um verdadeiro exame ao invisível para quem já passou por quatro cânceres.
Quem me conhece ou alguma vez trabalhou comigo sabe que – desculpem a franqueza – sou intenso, não paro e procuro sempre fazer o meu melhor, aos detalhes. É, pelo menos, o máximo que dou. E o mês de Agosto não fugiu à regra: foram 90 videos produzidos (70 entrevistas a atletas, técnicos, dirigentes, espectadores, e 20 reportagens diversas), cerca de 30 peças de rádios, centenas de fotos, entradas ao vivo, um blog por actualizar de forma permanente...
Foi sempre a correr, mas também a correr de qualquer ameaça do virus do zika ou do mínimo sinal de insegurança. No final, o Rio de Janeiro foi, de facto, a cidade maravilhosa e não o inferno como foi pintado.
As férias esperadas
Ao regressar, a Valéria e amigos disseram que estava muito bem disposto. Na verdade, sentia-me bem, embora cansado, o que era perfeitamente normal. Cinco dias de férias na primeira semana de Setembro numa praia a três horas de casa era o paraíso a que mais anelava chegar.
A caminho de Ocean City, uma tempestade tropical ditou que só podiamos ficar na areia, mas as comodidades do hotel e as ofertas turísticas da região ocuparam bem a nossa programação, tornando a estada muito agradável. Até ao último dia.
Na terça-feira, fomos à praia para que Bianca e Bruna se despedisem da areia antes de regressar à casa. De repente, uma autêntica invasão de moscas levou muitas pessoas a abondorem o local. Habituado a moscas, não fosse eu cabo-verdiano, das ilhas onde elas acordam antes do nascer-do-sol e dormem depois de todo o mundo, fiquei por lá a pantá-las, mas quando senti ter sido picado e vi que a Valéria tinha as pernas cobertas por uma toalha, decidimos desmontar o acampamento.
Uma mancha vermelha ao redor da parte posterior da canela começou a aumentar de intensidade e a provocar muito coceira. Logo eu que nunca  tive sarna, coceirinha ou qualquer outro tipo de doenças muito banais na minha terra, por exemplo. Na quarta-feira, tive de ir a um “pronto-socorro” para um primeiro atendimento.
Tipo de coisa é essa?
A coisa complicou e dois dias depois estava eu internado no hospital, com uma forte reacção em quase todo o corpo, incluindo nos lábios. Três dermatologistas e dois clínicos gerais não paravam de perguntar que tipo de mosca me teria picado. A invasão das chamadas moscas negras foi até notícia num dos jornais locais de Ocean City.
Depois de três dias, regressei a casa, fortemente medicado com esteróides.  O problema é que eles provocam fortes reacções no corpo como inchaço, aumento de peso,  tensão alta, ansiedade, nervosismo e muitas outras. Continuava a trabalhar, mesmo com esse quadro e muita comichão.
Pelo meio, tinha o tal controlo semestral do câncer de pancreas, enquanto um exame à urina indicava que tudo estava bem com a bexiga, cinco anos depois da cirurgia para a sua remoção e criação de uma neo-bexiga. Ao chegar ao oncologista, olhou para tudo e, em cinco minutos, disse-me: “tudo está bem contigo, agora em Março, nas vésperas de completar os três anos da cirurgia, tiramos mais uma foto”.
Entretanto, ao olhar para o diagnóstico da minha perna e ver que não me sentia confortável, voltou a olhar para o tratamento e, sorrindo, disse-me “acho que já sofreste mais com esta picada de mosca do que com todos os cânceres que tiveste!” E não estava a mentir!
No dia seguinte regressei ao clínico geral que, depois de um certo reajuste do tratamento, recomendou-me um medicamento, sem receita, e que todos tomam para alergia. Duas horas depois não sentia nada, recuperei-me e estou melhor do que nunca.
Foco e detalhes
Na verdade, ante ameaças maiores, como zika, violência ou recorrência de qualquer câncer, foi uma mosca a provocar-me um transtorno nas minhas merecidas férias. Nunca imaginei que a expressão idiomática mindelense “se moskinha amjá” ou “kond moskinha amjá” se aplicaria tão bem a uma situação real. Na verdade, a expressão que adverte para a eventualidade de algo inesperado e indesejado acontecer por “azar” aplicou-se a este caso, literalmente, com a mosca a deixar algo no meu corpo ou, no mínimo, a provocar uma forte reacção.
Em diversas situações da vida, são coisas pequenas, insignificantes, que nunca esperamos que venham a acontecer, que podem colocar areia na engrenagem e fazer-nos perder o foco. O segredo é, exactamente esse, manter o foco e definir o que é prioritário e aquilo que é secundário. Nunca confundir a árvore com a floresta.
Neste caso em particular, a picada da mosca e o consequente efeito dos esteróides por pouco não me tiram do foco, facto que podia levar-me a dar valor demasiado a uma situação menor, transitória, angustiante. Em consequência, os resultados excelentes do controlo semestral e o regresso seguro e saudável do Brasil poderiam ter sido ofuscados completamente, retirando a minha alegria de saber que a saúde continua bem, nas mãos de Deus.
Como escrevi anteriormente, não poucas vezes recorro a esta verdade absoluta que diz que “Deus fez as coisas fracas para confundir as fortes”, para tentar manter o foco naquilo que é importante, prioritário, sem descurar, no entanto, as areias que podem emperrar o meu caminhar.
Em tempo, agradeço a Deus pela reconfirmação dos milagres e reforço a ideia da importância de dar atenção aos datalhes da vida, das coisas pequenas que podem tornar um problema, enfrentá-los, mas sem esquecer as prioridades.

Não importa que “moskinha amjá”, mantenhamos o foco e deixemos que Deus oriente o nosso caminhar.  

2 comentários:

Oziel Morais disse...

Força meu Camarada... aprendendo sempre é que Deus mos ajude e abençoe sempre. Juntos!

Álvaro Ludgero Andrade disse...

Abraço, reverendo. Deus contigo.